Momento de delírio irreal

O Viajante está sentado à sombra de uma oliveira, com as pernas na posição de meditação chinesa, a fazer exactamente isso, pensado em vários locais que já tinha visitado. Naquele ar abafado de Verão, seco e sem brisa, o viajante imagina outros locais, frescos e ao pé do rio onde ele preferia agora estar. Focou-se num local seu conhecido, um prado verdejante e belo, cheio de flores que espalhavam o seu cheiro em redor.

No prado existia uma macieira, com frutos maduros e um pequeno ribeiro que cortava toda aquela paisagem, mas no entanto quase sem se notar. O vento acariciava suavemente as flores e as folhas da macieira. O ribeiro tornava o ar mais fresco, mas o Sol garantia o calor interno. Naquela paisagem qualquer um se sentiria bem.

O viajante já tinha lá estado.

Primeiro visualizou aquele local, depois sentiu o que sentiria se lá estivesse naquele momento, toda aquela frescura e aquele bem-estar. Começou a sentir a sua alma a separar-se do seu corpo, sentiu-a viajar-se pelo prado, voava sobre ele e amava-o. O seu corpo ainda sentia a sombra da oliveira e estava ainda sentado.

Apesar de viajar pelo prado, o viajante ainda não se via nele, apenas se sentia, era como se de um filme se tratasse, filme esse no qual ele não era protagonista. Tentou então visualizar-se nessa paisagem, ver-se sentado debaixo da macieira e não daquela oliveira. Aos poucos foi-se desmaterializando, o seu corpo foi-se desfazendo em imensos fios energéticos que viajavam quase instantaneamente, que viajavam do físico que o rodeava para a sua mente, reorganizando-se gradualmente na paisagem que o viajante conhecia. Ficava mais leve, sentia que aos poucos o seu corpo se organizava, materializava-se na paisagem que tanto o cativava. Sentia um misto de sensações, sentia o quente e o cheiro da oliveira e a fresca brisa e o cheiro a flores da primavera. Cada vez menos o quente e a oliveira. Deixou de sentir um misto. Todo o seu corpo vibrava ao sentir aquela frescura na sua pele, aquele cheiro nas suas narinas, sentia-se abraçar por todo aquele novo mundo.

Abriu os olhos e verificou que estava no prado, enfim, tinha-se teletransportado.

Parou a meditação gradualmente, pôs-se em pé e olhou em volta. O prado estava exactamente como o tinha visionado. Deixou-se inundar por aquelas sensações, apaixonou-se por aquele prado e por aquela macieira. Reparou que uma maçã estava no chão. Aproximou-se, apanhou-a e limpou-a com a manga. Possuído por um desejo súbito que não percebia muito bem, mordeu sobejamente a maçã, tirando-lhe um grande pedaço. Sentiu o seu sabor, doce e fresco como aquele prado e entrou em êxtase, um êxtase vertiginoso que o levou à loucura. Sentiu que se desfazia novamente em energia, todo ele energia e que se misturava com toda a energia em sua volta, cada elemento daquele prado se desfazia em energia e toda aquela energia, toda aquela intensidade, o Viajante era o prado e o prado era o viajante, sendo que tudo era uma só fonte de energia, um Big Bang fervilhante do qual o viajante fazia parte.

Mas quando se começou de novo a materializar, a organizar as suas redes energéticas, a formar toda a estrutura molecular que o compunha, o prazer transformou-se em depressão, o prazer transformou-se em desconforto, da loucura irracional passou à melancolia, deixou de ser todo o prado verdejante com a macieira e voltou a ser o viajante sentado à sombra da oliveira. Isto tudo em poucos segundos, o suficiente apenas para se mastigar uma trinca de maçã.

O céu escureceu e o ambiente à sua volta foi-se tornando mais nítido. A macieira era agora a oliveira e percebeu que estava de volta.

Perplexo, olhava em volta. Da sua mirabolante viagem só trouxe uma recordação. O sabor doce e fresco, néctar dos deuses, daquela peculiar maçã, permanecia depois de tudo na sua boca.

Era tempo de seguir viagem.

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