Perplexidade da impossibilidade de concretizar

O viajante pensava na viagem de teletransportação que tinha feito e a sua mente estava cheia de dúvidas. Em primeiro lugar, nem sequer tinha a certeza que de facto viajou para o prado da macieira. Tudo poderia tão facilmente não ter passado de uma viagem espiritual, onde apenas a sua alma viajou, ficando o corpo exactamente no mesmo local. Mas mesmo que a viagem tenha sido total, o que ficou foi lembrança e a aparente impossibilidade de voltar a visitar o prado assustava-o. Poderia nunca mais sentir aqueles cheiros e sabores, ver aquelas paisagens.

O Viajante pensava nas suas limitações e ficou perplexo. A sua mente era bastante mais criativa que o que o seu corpo e a física permitiam. Ele queria voar, queria ficar só no fundo de um lago, silêncio, paz, queria puder simultaneamente viajar em dois locais, sentindo cada um com a mesma intensidade como se os visitasse um de cada vez, entrando num estado frenético de sensações que de facto ele não conseguia alcançar. Queria sentir todos os seres daquela clareira, visualizar o lince que nunca mais encontrava, viajar instantaneamente e, acima de tudo, conseguir voltar a qualquer hora para o seu prado, para a sua macieira, para o seu mundo e por lá ficar, por lá sentir, por lá simplesmente viver.

Mas sabia que isso não era possível.

Ficava apenas com o intelecto. A sua mente continuava sua, os seus pensamentos eram seus e apenas seus e assim permaneceriam até ao fim dos tempos. Então restava lhe meditar, imaginar esses locais, imaginar o que sentiu e continuar a viajar, num mundo que é apenas seu, até aos limites do impossível intelectual, viajando com a alma e até aos limites físicos do trilho que percorria, até onde as suas pernas o levassem.

O viajante seguiu a sua jornada.

Rui Miguéis

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