Relatividade

Por muitos caminhos passou o viajante desde a sua última inóspita viagem ao prado. Muito tinha visto, muito tinha sentido. Falou com os animais daquela floresta, sentiu-os, viveu com eles e deixou o sentimento de saudade ser ocupado pelo sentimento de pertence. Caminhava sem nenhum humano o acompanhar, no entanto já não se sentia só, muito pelo contrário. Encontrou em cada ser dito irracional uma companhia que satisfazia toda a sua necessidade de contacto humano. Sozinho consigo mesmo, mas ao mesmo acompanhado por todos os seres vivos que o rodeavam, partilhando das suas sensações, dos seus medos, dos seus prazeres, de todas as sensações que fervilhavam na floresta, deixando o seu cérebro frenético de emoções, um buraco negro de tudo que à sua volta ocorria naquele momento. Ardia, como que em estado de delírio, via tudo, finalmente sentia em todas as direcções, em vários locais, em várias mentes, tinha-se fragmentado um pouco por toda a floresta, um orgasmo na sua mente, uma queda imparável nos confins do intelecto, da emoção, da vida. O seu corpo desfazia-se em cordas energéticas, milhões e milhões de cordas que se dispersavam rapidamente, procurando um hospedeiro que sem resistência as acolhia e as misturava nos seus próprios pensamentos, misturando esses milhões de cordas na sua alma, transmitindo-lhe os impulsos eléctricos que são os nossos sentimentos, as nossas memórias, os nossos pensamentos, o nosso todo racional e irracional, consciente e subconsciente, o nosso absoluto, o nosso todo, a nossa essência individual. Por milhões e milhões de organismos se espalharam os milhões e milhões de corda, ao mesmo tempo, por toda a floresta, desde a formiga mais pequenina que combatia com moscas para defender a sua toca, hormonas libertadas para não sentir medo, para não sentir dor, apenas vontade de lutar e proteger, até à mais alta das árvores que, com toda a calma de árvore bicentenária, transportava para o seu topo, para todas as suas folhas, a seiva que captava do chão, e que depois faria descer alimentando-se, uma onde energética descendente que a revitalizava constantemente, que lhe dava alegria e prazer. Tudo isto sentiu o viajante, multiplicado por milhões e milhões, num único instante, mas um instante que foi toda a sua existência.

No fim de tudo isto tudo voltou a si, tudo voltou a formar a sua própria essência, o seu próprio organismo, as relações moleculares foram restabelecidas, voltava a ser ele mesmo, o viajante, organismo singular que viajava, agora consciente da vida que o rodeava e da felicidade que é bombeada no sangue ou seiva de todos os seres vivos que o rodeiam.

No tempo que decorre entre piscar os olhos, aqueles milésimos de segundos que decorrem desde que abrimos os olhos até os fecharmos, o viajante foi teleportransportado novamente para o prado. Voltou a ver tudo, voltou a sentir, nova queda inexplicável no seu mundo fantástico, para logo voltar.

Mas desta vez não voltava com remorsos, ou infeliz, pela impossibilidade de regressar. Desta vez voltava sabendo o caminho que queria tomar, sabendo que em sua volta tinha a força que precisava para se projectar em novos universos, em múltiplos universos que o satisfaziam de um modo que o prado nem de longe conseguia.

No tempo que passou entre a última viajem que fizera e o que sentira naquele momento, provara tantos sabores, sentira tantos cheiros, vira tantas paisagens, sentira tanto e tão intensamente, que o prado era uma sobremesa que provara em criança e que neste momento ficava nada mais que memoria, sentimento ampliado pelas areias do tempo mas que agora que voltava a provar, agora que voltava a sentir aqueles sabores e cheios, percebia o exagero de criança imatura que provava uma guloseima.

De tudo isto o viajante tirou apenas uma, mas singular lição que ficaria gravada dentro si para todo sempre a partir de agora. Toda a sua experiencia era um todo que evoluía, que desenvolvia e que se ia intensificava, a tal ponto que o que outrora parecia certo e de uma intensidade tremenda, não passava agora de uma memória esbatida pelo passar do tempo, que enfim se apazigua e quase desaparece.

Voltava ao estado zen, podia então prosseguir a sua viagem.

Rui Miguéis

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