Consumido pela chama da vida

E de volta ao abismo que é a sua alma incurável, implacavelmente perfurada pela dor de ter e voltar a perder, de voltar e deixar de amar, a inconstante complexa e incompreensível  alma, com os seus picos de excitação e abismos deprimentes incontornáveis e de tal modo profundos que para os passarmos, para o outro lado seguirmos, apenas passando pelo seu fundo. Obviamente essa passagem deixa marcas tão vis, tão violentas e ao mesmo tempo inexplicáveis aos ouvidos de quem nunca as sentiu que nunca mais voltamos a ser os mesmos. Destruído fica o nosso coração, magoado com ninguém em especial, ou talvez magoado com o nosso interior, por no fundo bem lá no fundo sabermos que a culpa de todas estas marcas é nossa e apenas nossa, de mais ninguém além desse suicida, inconsequente, infantil e desgraçado eu que tende a fazer exactamente aquilo que magoa. No entanto esse ser energúmeno è também masoquista, pelo que a dor só faz andar em frente e viver ainda mais, com mais intensidade, com uma força inigualável, de tal modo forte que é capaz de destruir as barreiras da pseudo-realidade que à volta de si próprio cria.

Grande barreira quebrada, o gigante de pedra destruído por instantes, a mascara social quebrada em mil bocados, quase que sem querer, devido a pequenos nadas que no geral fazem um todo tão destrutivo que deita por terra até a última defesa. A última defesa, a verdadeira, a inviolável, até essa acaba por se quebrar e sucumbir a esse pecado asqueroso que é a honestidade! Abomino-a, renego-a, digo-lhe que vá e não volte, como uma noiva traída diz ao noivo malandro, desejo que morra seca e sem companheiro no fundo do inferno dos sentimentos. Minha hipocrisia como te amo, como te quero, como desejo profundamente que não me abandones, por favor não deixes a sinceridade voltar a tomar conta de mim.

Mas que demónio me possui? Como posso abominar algo tão bom, algo que, é certo que por uns meros instantes, me fez sentir tão bem, não rodopio delirante de orgasmo intelectual? Como posso eu ser tão ingrato com a tão bela sinceridade.

Que nenhuma das duas me abandone, que ambas continuem a ter duelos no meu coração, que o azucrinem, que o estraçalhem, que o matem aos poucos e poucos. De que me serve ele se não viver? Quero ser consumido pela chama da vida.

Rui Miguéis

Advertisements

About this entry