Homenagem

E novamente o seu sangue gelou.

Pensando para si mesmo ser invencível, ser imortal até (sim, porque a morte é para os indutivos), ser racional e superior, a um nível surreal, a todos os que o rodeavam, estava completamente enganado. Do alto do seu pedestal caía para a realidade, que não era assim tão alienado como se imaginava ser.

E de novo se sobressaltava, se preocupava, tentava recuperar a vida da sua flor, cuja essência ia desaparecendo a passos lentos mas vigorosos. A flor ainda lá estava, dando a todas as outras plantas do jardim uma alegria que era de todo inegável, uma energia que com certeza ia buscar ao radioso sol.

Mas a flor não morria, e aos pouco recuperava-se e voltava a dar toda a energia ao que a rodeava, mas não obstante ele não parava de se sobressaltar e agora ainda ficava mais gelado, mais preocupado, mais amedrontado.

Mas aos poucos a preocupação passava e dava lugar à excitação. Sim de facto agora só tinha vontade de com a sua alma abraçar aquela flor e dar-lhe tudo que dentro de si tinha, não o frio e rochoso, mas o quente que manteve inactivo dentro do seu corpo quase morto.

Passado o que pareceu uma eternidade em espera, faço-lhes o mapa cronológico: nota a flor, flor entra em estado latente de quase morte, flor regressa com todo o seu vigor, sendo o que pareceu uma eternidade o espaço (sim porque tempo pode ser espaço, tal como altura ou largura pode ser espaço) entre estado latente de quase morte e flor regressa com todo o seu vigor, voltando ao inicio, passado esse tempo que pareceu ínfinito na sua mente, sentia uma sensação nunca antes sentida. Antes de notar a flor, o nada, intemporal e frio, no sentido total da palavra nada, pré-vida, pós-morte, nicles, menos que um sonho, menos que um sonho inacabado, menos que um sonho que não chega a acontecer, apenas ocorre no sonho do sonho, menos que isso, nada nada nada. E depois disso, tudo.

Flor, flor, minha querida flor, dizia para si mesmo, tentando em vão atingir a inatingível flor, que porta foste tu abrir, minha mais que tudo.

A partir desse momento e só desse único e irrepetível momento, que nunca voltará a existir e que não terá, quase de certeza, ter acontecido nas milhares de milhões de outras dimensões paralelas que existem à nossa, ou minha, ou do homem que pensa na flor, sim porque nem eu sei se existo, nem se só ele existe, ou se só vocês existem, ou se eu e ele existimos e vocês não, e combinações mais combinações, porque a ordem não interessa, eu e tu, tu e eu, em termos de probabilidade é exactamente o mesmo, o que importa é que a partir desse singular e peculiar momento, o homem começaria a existir até voltar a definhar, morrer para o seu mundo que só a ele diz respeito e abandonar a esperança de encontrar outra bela flor, perder a consciência de uma vida passada, deixar de existir, morrer. Nada absoluto e intemporal. Nicles, para quiçá um dia voltar a acordar.

Mas disso não tinha ele a mínima consciência, de todas as vezes que morrera e renascera não guardara nada, por isso conseguia voltar a ser feliz de cada vez.

Olhava a flor, com desejo de ser dela para sempre e de para ela ser tudo, também para sempre, seria feliz e mergulharia no verdadeiro mundo.

Talvez o seu sangue não voltasse a gelar

Homenagem

Por Rui

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