Rapsódia

Um dia estava sentado no meu alpendre a fumar a minha cigarrilha e a beber o meu beirão, alheio ao mundo e aos seus encantos. Era só eu no meu mundo tão belo e tão bem criado.

É então que me deparo com algo completamente fora da realidade normal a que estava habituado. Não é que um bando de tresloucados, vestidos de romenos, vão equipados com instrumentos a tocar uma rapsódia kusturitica, completamente tresloucados, notoriamente alterados pelo álcool que eles próprios transportavam, de vodka a Vat69. Cantavam, berravam, molhavam-se com o dito álcool, incitavam os transeuntes a juntarem-se àquela Unza, espalhavam-se pelas ruelas, para depois se voltarem a unir nas ruas centrais da minha bela e pacata aldeia. Um deles vestia um fato, era o que mais berrava, que mais alto cantava, que mais feliz parecia estar, queimava os últimos cartuchos da liberdade que lhe restava. Pelo motivo dos cânticos que entoavam percebi que aquele seria o noivo.

De repente, saltam de um carrinha que acabava de aparecer na rua palhaços, malabaristas, cuspidores de fogo, dançarinas exóticas, domadores de tigres e leões que os traziam bem agrilhoados e os faziam rugir de alegria e ajudar à paródia que em volta deles ia ganhando forma. O último a sair da carrinha foi um velho de barbas, que trazia consigo uns caixotes enfeitados com caracteres estranhos e com ar pitoresco. Abriu a caixa, deitou para dentro dela um fósforo e logo lhe virou as costas, saltando e cantando, bebendo e gritando juntamente aos outros a boa nova da liberdade e da vida. Passados poucos segundos os foguetes começaram a sair disparados e em chama da caixa, enchendo o céu de cores e barulho ensurdecedor, de gritos e risos de alegria, a multidão delirou a cada som do seu rebentamento.

Quando dei por mim estava a acompanhar a rapsódia, completamente apaixonado por todos eles, por todos os seus elementos característicos, pela sua alegria, pela sua livre forma de viver. Não paravam de andar e aos poucos de dez pessoas passaram a cem!

Chegados à igreja, onde seria o inevitável casamento, o barulho parou, a rapsódia extinguiu-se, os malabaristas pararam de malabar, as dançarinas de seduzir todos os que em sua volta se dispunham, os cuspidores de fogo de aquecer ainda mais o ar, os leões e tigres de rugir, a multidão de beber e cantar, os músicos de tocar a sua bela rapsódia kusturitica.

Todos se compuseram, rasgaram as roupas romenas para mostrarem os fatos que por baixo traziam, deitaram fogo às roupas e aos instrumentos, usando o álcool como combustível, os tigres e os leões transformaram-se em gatos e cães respectivamente. Passaram a ser convidados normais de um casamento de verão da bela e pacata aldeia que eu tratava abusivamente como minha.

Abri os olhos e lá estava eu de novo. A cigarrilha tinha-se apagado no canto dos meus lábios, o gelo derretido no fundo do licor por beber. Voltava ao mundo real.

Rui Miguéis

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