É favor não ler

Era uma vez um rapaz que tinha um isqueiro que funcionava a hidrocarboneto isoparafínico sintético, uma espécie de combustível próprio para isqueiros, daqueles que dificilmente se apagam com o vento, ou que não apagam mesmo, visto o seu pavio estar em contacto com essa substância inflamável conhecida como fluído para isqueiros. Para o fechar tem que se efectuar um rápido movimento com o pulso, fechando a tampa do dito isqueiro, com um clique alto característico, tapando assim o contacto entre o ar e a chama, o que resulta assim no fim do contacto entre o combustível e o comburente, ou seja, entre o hidrocarboneto isoparafínico sintético e o oxigénio, o que resulta finalmente no apagar da dita chama.

Mas isto não é o importante para a história, mas fica sempre bem uma introdução onde se explica o funcionamento das coisas, ou então diria apenas que era uma vez um senhor que tinha um zippo. A questão é que assim poderia estar a cometer uma imprecisão, pois o senhor poderia ter um zippo ou outro qualquer isqueiro não da mesma marca mas do mesmo género. Ter uma boneca não é o mesmo que ter uma barbie e ter uma lâmina de barbear não é o mesmo que ter uma gillette. Mas o facto é que, visto a idade daquele isqueiro e a sua proveniência, era definitivamente um zippo. Desculpem alongar-me tanto nesta questão.

Simplificando a questão, era uma vez um senhor que tinha um zippo.

O seu bisavô tinha comprado aquele zippo a um general durante a Segunda Grande Guerra Mundial, em troca de uma bugiganga qualquer tirada a um Kraut morto em combate.  O bisavô do actual proprietário do zippo, se é que dizer actual faz algum sentido, era americano, pertencia aos Airborne. Saltou no Dia-D, durante a operação Overlord, pelo que por volta de Junho de 1944 estava na costa francesa a precisar de um isqueiro. A necessidade e oportunidade fizeram-no trocar a dita bugiganga pelo dito zippo.

Durante o período que esteve na guerra, o zippo viu de tudo que se pode ver na guerra. Viu rápidas ofensivas sangrentas e violentas, viu-se entrincheirado à espera de novo combate, voltou a avançar pela Alemanha dentro, vendo morte e destruição por onde passava. Entrou nas terras destruídas pela guerra, viu campos de concentração a serem libertados, viu o sofrimento que a raça humana podia enfrentar e foi-se tornando frio, cada vez mais frio, até chegou a pensar que não seria quente o suficiente para acender uma chama. Mas assim não aconteceu, mal era requisitado acendia de prontidão, ao vento e à chuva, como a propaganda que o acompanhava afirmava ser possível. Depois de tantas batalhas e tanto sangue, depois de tanta morte e miséria voltou ao seu país de origem, com o bisavô do seu actual dono.

Viviam-se os cinquenta e, por todo mundo, se vivia o renascer da guerra. Muitos foxtrots dançou o zippo, muitos quicksteps e muito Frank Sinatra ouviu. Um veterano de guerra sempre com o seu Marlboro cancerígeno, o seu zippo pronto a acender e um passo de dança sempre pronto para ser dado. Mas bastou o velho bisavô envelhecer e o zippo foi esquecido. A guerra tinha deixado as suas sequelas no bisavô e agora fumar estava completamente fora de questão. Cigarros era para os jovens Cowboys, um homem com uma idade avançada para o seu tempo tinha era que descansar e no máximo deixavam-no beber um velho Scotch.

Ricardo

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