Esquife

A agulha perfura a pele rija do cadáver na maca. A sua alma já desaparecia do seu transporte há algum tempo. Agora só a cara que todos viram, a face que todos reconhecem como sendo o ser que há horas o deixou, há horas abandonou o seu transporte temporário neste espaço. Àquela hora que o corpo está frio na maca de metal. O fúnebre trabalhador cose o peito do homem que morreu. Lava-lhe a cara com algodão para que ele seja entregue à terra limpo, de toda sujidade que nele se entranhou nesta longa e curta vida. Lima-o para poder colocá-lo na caixa que levará o seu corpo para a sua sepultura. A pele se enruga quando o corpo é levantado para ser colocado no Esquife.

O Esquife feito de quatro tábuas, trabalhadas pelos mestres madeireiros, irá guardar o corpo de quem espera redenção pelos seus pecados. Uma fúnebre cerimónia aguarda a entrega deste corpo como representação da compreensão de que a alma nele antes contida já o abandonou, e como que para não deixar este instrumento agora sem função, abandonado para apodrecer fedendo de ingratidão e repulsa pela sua não importância. Este esquife irá agora ser o guarda deste instrumento, será o casulo da transformação do material que a terra sempre regressa, que retorna sempre às sua origens, o esquife é da mesma cor que uma folha de plátano, avermelhado pela fugacidade da intensa vida, já trabalhada pelo corpo. Mas escuro, o esquife, relembrando a todos os presentes que a Morte comanda e negoceia-a com a Bela mulher que é a vida. Trocando cromos e berlindes por coloridas almas. Pois, a morte e a vida, um dia, acordaram criar algo, fundar um novo tipo de matéria, a matéria agora ausente do esquife, o esquife que é o nosso corpo…A Caixa que guarda o corpo. Escura mas confortável, responsável pelo nosso descanso.

Acordaram, a Morte e a Vida, que os alicerces da mais obstante obra iriam construir. Um deles como arquitecto o outro como engenheiro. Tempo levou a construir mas era inexistente ainda ampulheta do tempo, só no fim do último tijolo a Morte pergunta: “Terminado, uma aposta em quanto tempo isto irá durar?” “Parece-me sólida, apostar não mata ninguém… Pode ser.” De imediato a Morte construiu a Ampulheta. “Este será o tempo que esta obra durará”. A Vida fez e faz de tudo para evitar perder a aposta, e guarda as plantas da construção no esquife para mais tarde ter uma recordação…

“O esquife transporta as plantas da construção.”

Aníbal Treva Negrão
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