É favor não ler II

Mas o mesmo destino do homem, ou do bisavô, não o teve o zippo. Durante um tempo foi parar a uma caixa de madeira, que era nova e começou a envelhecer, a ganhar pó e a cheirar a velho. Se não fosse o avô do rapaz, que um dia procurava o que fazer no sótão e o encontrou na caixa já velha, talvez a história do zippo e do rapaz ficasse por ali, ou seja, nem sequer teria sido escrita, pois uma história tão curta não merece tanto aparato. Minto, merece sim. Até daria mais atenção ao bisavô, e à guerra e talvez até ficasse de novo uma história longa. Mas isso também não é de grande importância porque o avô, que na altura era um jovem, encontrou o zippo no sótão da casa do seu pai, bisavô do famoso rapaz.

Ao início não sabia bem o que fazer com ele porque não fumava, mas já naquela altura os zippos tinham o seu quê de importância e não se podia abandonar simplesmente um zippo num sótão. Então o avô recolheu-o, limpou-o, pô-lo a funcionar e a brilhar, dando-lhe a nova vida que tanto merecia aquele zippo em especial. Durante uns anos, até aos seus 18 não o usou para acender tabaco, apenas o usava para outras banalidades e por ser bonito acender um zippo, ouvir o clique e apagar fechando a tampa num movimento seco e rápido.

Começou a trabalhar numa fábrica, num ambiente citadino, e o tabaco foi algo que quase foi obrigatório. Todos fumavam, todos tinham sido afectados pela onda Marlboro e essa onda viria para ficar por uns tempos. Então finalmente o avô usou o zippo para acender um cigarro. Há muito tempo não sentia o zippo o cheiro de um cigarro acabado de acender e as saudades que sentia deles eram grandes. Sentiu-se bem o zippo e de novo realizado, pois voltara a fazer aquilo para o que fora construído.

A vida do avô não tem nada de especial para contar porque foi um vida de trabalhador fabril citadino, que vai para o trabalho de manhã e à noite volta, com intervalos para comer e fumar, depois apanha transportes públicos e volta para a casa. No entanto o avô ajudou a erguer grandes cidades, os grandes arranha-céus, tanto trabalhava na fábrica a construir material, como estava nas grandes obras a fazer levantar edifícios. Enfim se casou e teve um filho, o pai do jovem que importa falar e o pai definitivamente teve uma vida bastante mais interessante. O avô ainda vive, continua a fumar e a jogar as suas cartas, o seu xadrez, a levar a sua vida pouco preenchida mas feliz. Tinha horizontes pouco alargados, comparado por exemplo com o seu pai veterano de guerra e por isso não via a intensidade que tinha perdido. Lamentava no entanto não ter estudado mais e incutiu esse valor do estudo desde o início no seu filho. Jogava às damas no meio de árvores de um parque da cidade que outrora ajudou a construir, por lá morreria ainda a jogar às damas, ou às cartas, ou xadrez, deixando apenas para trás as suas relações que eram poucas, o amor da sua mulher por si e um filho, que mais traria ao mundo, para além claro está destas maravilhas de betão, que agora são o regalo dos visitantes que vêm dos quatro cantos do mundo para as verem. Debaixo delas estão albergados todos os bens não-necessários que o Homem precisa, são o símbolo do crescimento desmedido, da aglomeração citadina, da globalização, quem sabe do futuro, ou também do fim inevitável que nos espera.

Para além de o avô ter visto tudo isto crescer, no seu bolso, nas suas mãos, a acender o seu cigarrinho de cada dia, estava sempre o velho e eficaz zippo.

Ricardo

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