Estante da Figurilha

Tomo II

Na estante pensava o Sr. Bartolomeu. Pensava em navegar nem que apenas uma vez, navegar o azul e turbulento Oceano. Viajar ao sabor do Vento. Percorrer o Oceano sem saber onde o vento o levaria. Pensava e sonhava com essa viagem de cada vez que o António o colocava na estante. Pensava sem nada poder dizer, mudo no seu canto. Mudo para o mundo. Como podia ela alguma vez pedir para ir até ao mar. Teria ele de esperar que, por alguma obra do acaso, o rapaz o levasse para ver e tocar a praia, tocar a areia, ver o mar, sentir o sabor do sal na brisa marítima.

Era ainda mais desconfortante para o Sr. Bartolomeu agora que o pai de António se tinha dedicado a construir modelos à escala de antigos e clássicos automóveis. O seu mais recente trabalho era um Ford Mustang numa cor de Noz, com apenas dois lugares do ano de 1967. Com os seus faróis circulares e o design do chassi com a agitação e o relacionamento de amor entre as linhas rectas e redondas … o modelo estava ainda por terminar. Faltavam-lhe ainda duas rodas e o capot, podendo ver-se ainda o motor. Bartolomeu podia ver o detalhe com que o modelo estava feito. Ah a precisão, a beleza do motor V8 era refrescante e sem aparente razão a figurilha na estante pensava quando iria o velho Pai construir uma caravela… De certo com tanta precisão e detalhe ela poderia funcionar, poderia um dia levá-lo ao Mar sem ele ter que uma palavra Falar.

Ele do seu alto ponto, da estante envernizada, dando-lhe um tom de escuro e encerado, tal como o Mustang na mesa mesmo a 3 metro dela. A madeira da estante era preta e rugosa mas com toque macio. Tinha uma estrutura desajeitada e desorganizada, a prateleira onde estava o Sr. Bartolomeu parecia estar desalinhada, torta, e não paralela com nenhuma outra tábua. O Sr. Bartolomeu descansava perdido nos pensamentos da construção da mais bela e rápida Caravela que ele podia imaginar. Ele não era nenhum especialista mas imaginava-a ser construída, imaginava a sua armação a ser montada, o casco a ser pregado, o mastro a ser posto no centro trazido das distantes plantações de Carvalho de D. João,  forte e flexível. As velas do mais forte e nubloso linho feito pelas mais maduras e conhecedores aldeãs. Deitava-se no seu suporte de ferro o Sr. Bartolomeu pensando na bela embarcação que pretendia um dia velejar. O suporte fora construído pelo António com a ajuda de seu pai, pois por vezes a figurilha caia da estante ficando abandonada no chão à espera de alguém para ao seu lugar regressar não lhe sendo possível gritar por ajuda. Não querendo o rapaz perder o brinquedo montou o suporte de apoio e descanso de sonhos do Sr. Bartolomeu. “Sonhos de Navegação do Sr. Bartolomeu”

Manuel Vela!
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