Caravela “Vera Cruz”

Tomo III

A estátua muda, descansava na sua estante perdida. No silêncio da casa, perdida na observação pensando, reflectindo mas sem em nada concreto pensar, apenas pensava saltando de ideia em ideia, de achar e pensar em considerar e reflectir. Não podia conversar… não podia participar nas festas mensais de Brinquedos, não era interpretado pelos outros e para além disso não sabia o que dizer. Espontaneamente passava na casa de bonecas mesmo ao seu lado para cumprimentar as belas bonecas que se penteavam e maquilhavam para cada saída que faziam da bela casa. Saudava-as com um olhar mais simpático, pois muitas das vezes deslocava-se ao café para tomar um café ou um chá, nos dias mais calmos, e comer uma fatia de bolo de pudim confeccionado pelas mãos macias e perfeitas da brilhante Manela Massa. Ela já sabia o que o Sr. Bartolomeu queria pelo seu olhar e servia-o logo que este se sentava. Num certo dia, quando o Sr. Bartolomeu chegou ao café de seu nome La  Pasta, viu pela janela do café uma armação na mesa dos modelos do Pai de António. Parecia-lhe algo familiar, algo de forte e consistente mas não conseguia perceber o que era.

A sua noite tinha sido atribulada, tinha sonhado com uma vivacidade enorme que se sentia estourado e sem forças e o seu sonho o intrigava logo pela manhã. Estava tão pensativo nesse dia que nem a barba desfizera e apenas olhara para a casa de bonecas. Nem se apercebendo que as Belas raparigas tinham comprado um deslumbrante vestido e desfilavam com ele imaginando-se serem tão preenchidas como a Natureza, sentiam-se calmas. Mas nada disto estimulava o Sr. Bartolomeu, apenas a armação o acordou e o felicitou com um “Olá” cheio de carinho, paixão e emoção. O Sr. perguntou então com uma voz feliz: “Desde quando está a armação na mesa de montagem?” mas nada o ouvi, pois ele se tinha esquecido que não falava, apenas ouvia a sua voz na cabeça. Durante 3 minutos o Sr. ficou olhando a armação até que Manela se apercebera e perguntou. “Sr. Bartolomeu, vejo que reparou na nova construção. Pelo que vi da embalagem é uma Caravela, o seu nome é engraçado e belo. Chama-se “Vera Cruz” e tem um aspecto de que será uma bela embarcação”. Bartolomeu não podia responder mas aguardava por ver a montagem da caravela Vera Cruz.

Nesse dia permaneceu todo o dia no café olhando a janela e esperando que ela fosse montada. O António não estava em casa durante o dia todo, portanto a Figurilha tinha todo o tempo para si. Tempo que passou rapidamente. Eram já seis horas quando o Sr. Bartolomeu olhava para o seu simples e clássico relógio de pulso. O rapaz, o António deveria estar a chegar da aula de natação. Cada vez que o Sr. Bartolomeu o via entrar com a touca ainda na cabeça e os calções pingando água imaginava-se navegando a caravela por uma enorme tempestade, lutando, no mastro contra as fortes e imprevisíveis correntes e impetuosos ventos que fustigavam as mais belas e macias velas. Neste dia ele tinha se perdido durante tanto tempo nos pensamentos que, quando regressara da tempestade de pensar, olhou para a mesa de montagem e viu o pai de António iniciar a montagem do casco na caravela.

O nome do homem era Valentim. Tinha uma barba já esbranquiçada apesar dos seus 48 anos e com enorme calma e precisão de mãos começou colocando uma tábua no casco. O Sr. Bartolomeu ansiava que o tempo passasse lentamente para puder aproveitar todo o tempo. Mas para triste alegria do Sr., o menino António  decidiu pegar na figurilha para com ela brincar. O Sr. Bartolomeu tentou não tirar os olhos da caravela mas nada pôde fazer quando a enorme mão do rapaz pegou nele tapando-lhe os olhos.

Cego para a Bela Caravela.

Manuel Vela
Advertisements

About this entry