Alicerces

A Morte segura no lápis com os seus esguios dedos, delgados e frios dedos de osso mas precisos como um bisturi.

A Morte sempre fora assim um cirurgião, apesar de em momentos parecer atabalhoada. Ela desenhava numa folha de papel reciclado a forma e planta da grande obra que acordara fazer com a Vida. Preparava os Alicerces. Pensava em como os fazer, que material escolheria para os construir já que a vida lhe tinha proporcionado um enorme catálogo de matérias e materiais. O primeiro pensamento era em construir uma base de DNA mas as estruturas do belo catálogo do IKEA eram ainda frágeis e mal armadas. Mas na página seguinte encontrou uma estrutura forte e bela para a base. Era feita de RNA um antigo material que agora tinha sido modernizado e permitia uma maior manipulação. Para a Morte era perfeito, não iria criar uma estrutura regular mas nada é totalmente regular, nada é simétrico ou perfeito. Isso alegrava a Morte. Sempre fora intenção da morte criar uma imperfeição para com a Vida apostar na duração dos alicerces.

Traçava linhas finas com a confiança de que esta seria uma obra-prima. Algo nunca antes construído por nenhum “Deus” se é que se pode chamar isso e a estes dois seres de poder inimaginável, mas de limitações universais. O Papel era grande mas macio, a irónica Morte queria que a sua co-obra fosse única mas falível de erro. A cada linha e ângulo ela pensava em como ludibriar a Vida e fazer da master piece uma imperfeição. Não por ser de mau gosto da Morte mas uma filosofia ela seguia. Porque fazer algo perfeito se a perfeição não tem utilidade, nenhuma emoção cria, sem progressão fica. Aborrecida se torna. A Morte pretendia criar o Mausoléu do imprevisível e da continua transformação. Nada de uma mais construção para triste complementação. Algo que pudesse “mexer-se”, algo que evoluísse e não, mais uma pedra bem trabalhada que fica elegante no Hall de entrada. A Morte tinha as suas próprias intenções simples e emocionantes, mas a Vida também pretendia algo. Também tinha as suas próprias intenções.

Não quero eu com isto dizer que a construção, que a relação profissional e de amizade corre o risco de ser rompida neste processo de montagem. Quero somente dizer que estes dois Escultores tem  perspectivas e estilos diferentes para a manipulação do seu trabalho. Tendo conhecimento disto, a Morte decidiu então ocultar os seus planos na criatividade e obscuridade, atraindo a atenção da Vida para algumas regiões mais bela e de maior agrado a esta da construção. A Morte entregou os planos finais à Vida e, após uma meticulosa observação, aceitou o projecto e foi então iniciada a construção.

Aníbal Treva Negrão
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