Velas, Velejador e Valentia

Tomo IV

A Réplica se levanta, se edifica perante os olhos do calado senhor. Todos os dias mais peças são acrescentadas na construção e o Sr. Bartolomeu aguarda poder alguma vez a tocar. Valentim não tinha pressa, calmamente continuava a sua caravela, a cada dia mais completa, mais pronta para os Ventos atribulados para os quais nunca fora feita, pois era uma miniatura à escala. Era frágil e as velas que vinha conjuntamente com todas as tábuas e peças na caixa eram feitas de papel muito fino que não aguentaria a mais suave brisa. Era apenas uma Caravela para exposição mas na cabeça do Sr. Bartolomeu era uma embarcação rápida. A Caravela!

Velas! Bartolomeu, sem poder falar perguntava-se. Como irá Valentim colocar as velas na caravela? Cega a figurinha não conseguia perceber como tão estranhos pedaços de tecido seriam colocados no mastro e nas ramificações. No seguinte dia, após já o casco estar reconstruído e o poderoso e altivo mastro encaixado no centro da “Vera Cruz”, o Sr. Bartolomeu acordara pensando o que poderia ele fazer para apressar a construção da mais bela embarcação… As ideias corriam pela sua cabeça como desenfreadas crianças que estavam hoje pela manhã de férias, livres de qualquer compromisso. Voavam no céu do ferroso Homem as ideias. Trazendo algo de mais activo à sua cabeça, fazendo-o esquecer-se que nunca poderia falar. O seu falar, a sua linguagem eram as fibras da vela, eram os pensamentos, eram a rede de padrões nas velas. Eram a sua tentativa de Velas. Pensava…

Que material posso eu usar para o pano? Não pode, decerto, ser qualquer coisa… Mas terá também que ser grande, que possa ser uma única peça para que o vento seja uniforme por todo o tecido. Para que a força deste não se perca nos cortes e costuras da vela. O Sr. permanecia no seu suporte sem qualquer ideia, sem qualquer real conclusão, sem qualquer material para trabalho… Decidiu, num momento de loucura, num instante de acção-pensamento, se levantar e caminhar. Ver a casa onde morava, ver as pessoas mexer, fazer as suas tarefas, observar os brinquedos nos seus momentos quotidianos, descobrir novas coisas, olhar velhas com novos olhos. Acordou para explorar… esta seria a primeira vez, a primeira exploração.

Caminha pelo passeio mesmo em frente à casa das bonecas de porcelana, mais um dia de alegria para elas, um dia de gritos de emoção e conversa na casa. Olhando tudo o Sr. Bartolomeu pensa. Ele procura no escuro do inútil um objecto que se tornará útil para a Caravela. Perdido agora num mundo nunca antes visto, nunca antes falado por este Comandante sem comandos… Ele busca no nevoeiro do não-ver um velho objecto que poderá agora servir uma nova função. Que tenha agora outra utilidade. Continuando a sua caminhada passa agora pelo Zoo. Este está cheio de animais, preenchido com feracidade e energia. Mas nada aqui lhe parece servir o papel de vela. Decerto, se a embarcação fosse de remos os velhos e fortes Gorilas poderiam dar uma Mão para remar. Mas nada aqui poderia servir de vela. Mais em frente e, descendo na prateleira de Fernando Pessoa, estava a Academia militar. Talvez aqui possa haver algo. Olhando a entrada, o Sr. Bartolomeu via a bandeira ser hasteada e um pelotão de soldados de Chumbo caminhava perto do quartel. Eles faziam um barulho cronometrado e que lembrava, de imediato, coordenação e força. Bartolomeu entrou na Academia. Ele conhecia o General Amaral, Veterano de guerras. Era hábito “conversarem” pela manha na La Pasta. Nada de mais, uma conversa de cumprimentos e umas pequenas histórias de guerra que Amaral contava. O general estava a sair dos seus aposentos e, de imediato, identificou o Sr. Bartolomeu. O que o trás por aqui velho companheiro? Ambos sabiam que era inútil falar. Contudo Amaral percebera que o olhar da Figurilha se fitava no pano que protegia o tanque. Esperou que o Sr. Bartolomeu o olhasse como que colocando a pergunta. Poderá aquilo servir de vela? Após este esperado olhar lhe respondeu o General Amaral. Infelizmente o tecido não e muito flexível e mais certamente se rasgaria com o vento. A face da figurilha ficou mais cinzenta que o normal, não fosse ele feito de Ferro, que com uma continência se despediu e continuou descendo na estante! No piso mais abaixo encontrou nada, uma prateleira vazia. Era o local onde António colocava os seus livros, os livros da escola. Lugar onde ele agora se encontrava. Mais um piso e a figurilha desceu para o solo. Ele podia ver no centro da sala, numa manta repleta de cores, a irmã mais nova de António, Amália. Uma loira bebé que mal gatinhava e que vestia um grande e comprido vestido branco… Branco… Era linho. Forte e com tamanho suficiente… Era perfeito. Correu para Amália como se por um campo de batalha se trata-se. Quando chegou ao Branco, ao tecido pretendido esticou a sua mão de ferro e puxou um pouco do tecido da roupa de Amália. Com precaução rasgou-o com o tamanho perfeito para a vela e correu novamente de volta para a estante. Escondeu-se entre a madeira e uma caixa de cartão, aqui dobrou o tecido que prendeu com dois cordéis soltos da Vela aos seus ombros. Subiu a estante para o seu miradouro e olhou a Caravela!

Velejador! Ausente está o Corpo, o capitão no leme. Na caravela, ninguém a comanda. Vazia. Oca. Com um brilho nos olhos a Figurilha engenha uma maneira de lá o seu corpo se pousar, de chegar ao mastro e colocar o mantel. Agora com a Vela do manto de Amália. O corpo frio de Bartolomeu aguarda a fuga para o seu desejado fruto. Inquieto e sem se poder expressar, pensa… percorre as possíveis maneiras de atingir o leme da caravela. Mas não consegue … a adrenalina é alta, é uma montanha de altura. Com escarpas e ravinas perigosas. Descer desta montanha não poderá agora ser. A figurilha terá de aguardar, esperar pela bonança, pela calma dos ventos ou cairá 12 andares desde o topo do cume até ao sopé da selva, onde os gorilas lutam e se impõem. E este tão pequeno Sr., devastado pelas ventosas correntes de ar. Tão pequeno e desinterligado no mundo dos brinquedos, sozinho será impossível se posicionar como velejador… Pelas suas próprias mãos não trará direcção à sua caminhada. Neste instante apenas esperar é a solução. Aguardar…

Aguardar na sua poltrona, no seu lugar de descanso, apoiando cada vez mais as costas, deixando o corpo cair sobre o suporte, permitindo que os seu olhos permanecessem mais tempo fechados, pensando, mas nada alcançando. Parado para descansar mas inquieto na busca do velejador. Permanentemente procurando e progressivamente adormecendo… Caindo sobre o manto de sono, passando e transportando consigo para o lugar do inconsciente a sua enorme vontade, deixando-se levar empurrado para a apneia do sono. Suspenso…

Solto até que somente preto lhe preenche a cabeça  e ele finalmente termina a sua gravação do consciente a corre pelo deserto fértil da dimensão do cérebro da sua cabeça, que a todo o tempo permanece no seu crânio. Que termina, que desliga… … …

Apenas existe, agora, o nada e o tudo na sua a cabeça, a viagem pelo desconhecido, o inconsciente do consciente. O nada saber mas o tudo poder fazer, o confuso e o claro do incerto. Todo um ramo da árvore, todo um caminho por entre emaranhados de soluções e um chão de problemas. Uma dimensão de novo permanecer sem que a figurilha agora estática e congelado na sua carne de ferro frio sem matéria para expressão vocal. Desvocalizado perdido no escuro e negro do sono acordado de um metal amolgado, viajando pela dimensão sem comprimento, distanciamento ou mesmo altura.

Agora nada existe e tudo está presente!

Sem perceber quando o Sr. Bartolomeu acordou, ciente do onde se encontrava, mas sem saber quando se encontrava, com o seu olhar a fixar a caravela e a sua cabeça bloqueada numa ideia que lhe persistia desde o sono. “Tenho que pôr os pés na caravela.” Levantou-se para algo fazer e sair do impasse. Pousou o seu pesado pé e olhou para as suas botas de sola baixa, com a ponta um pouco pontiaguda e, passo a passo, foi descendo a estante, descendo prateleira a prateleira lentamente mas com firmeza e decisão. E, assim que chegou ao solo, parou, fitando a mesa onde se encontrava a Caravela.

No escuro, pela esquerda da estante onde o Sr. se continha, apareceu o General. Bom e Lutador Amaral. E numa voz forte disse. “Pretendemos conquistar os tanques a veículos que o homem construiu. É hora de este exército de Soldados se tornar num agrupamento de almas e corações…” Sem que o Sr. Bartolomeu se apercebesse da base, da estante saíram milhares de soldadinhos, de chumbo, madeira, plástico e mesmo pedra. Todos preparados para a conquista. Baralham de mini-soldados armados e com coração de leão. Todo o soldado é um amante do sentimento tal como o sentimento de velejar a caravela pela figurilha. Sr. Bartolomeu era já uma peça deste puzzle. E numa marcha tão complexa e coordenada que, qualquer observador, como as bonecas da casa, perceberam que algo forte e vivo se mexia naquele momento.

O tempo passou sem ninguém o conseguir quantificar e já militares tinham tomado os tanques e transportes, o velejador a caravela e agora um empurrão o separava para dar viagem de navegação e deriva que a sólida figurilha pretendia desde o primeiro dia…

Valentia! Coração bate com rapidez no peito do Sr. Bartolomeu, o momento é perfeito. Este é o preciso ponto no tempo. O Ponto em que seu corpo frio arderá por dentro de coragem, arderá de valentia. Mas primeiro o medo ele sente, um monstruoso e forte medo que o domina impedindo-o de agir, de mexer de FALAR mas nunca de pensar… A sua embarcação seria empurrada para a água do ralo, do cano no apoio da janela. Com um empurrão de um dos tanques. Dois tanques no fundo da mesa se aproximavam da embarcação e uma rampa à sua frente se encontrava. O roncar dos motores acelerava o Sr. Bartolomeu e, com um embater no casco, os tanques começaram a empurrar a caravela, velocidade ela ganhou tal como o seu coração e, de seguida, veio o salto… para ultrapassar o parapeito da janela…

Quando a caravela embateu na água, a valentia do velejador explodiu e as suas mãos no mastro tornaram-se um só organismo, o cérebro e o corpo, a figurilha e a caravela….

Manuel Vela
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