Lobo solitário

Cão-Lobo! [I]

Na Rússia falava-se da lenda de um pequeno cachorro. Era dito ser o mais belo cão de toda a Terra, nenhuma descrição lhe poderá fazer justiça, a minha língua-mãe e linguagem não lhe poderão ser fiéis ao escrever.

Quando o cão era ainda um recém nascido, na sua terra mãe de verde e azul algures nas terras de onde todo o sentir surgiu, ele caminhava atabalhoadamente, ainda sem dominar os movimentos, caminhava apenas há dois dias. Num caminho fechado e coberto por silvas e velhos carvalhos. Um homem o viu, calmamente o cachorro descia pelo caminho, até ao fundo onde o homem se encontrava, sem se aperceber que alguém lá estava. Este homem olhou o pequeno e percebeu que ele era ainda jovem e sem experiência. Palavras de apreço disse ao cão. “Cuidado, desce lentamente e olha onde pões os pés”. A descida continuou para o animal, considerando as palavras ditas pelo homem, mas assim que ele atingiu o antigo lugar do homem ele já lá não se encontrava, não havia vestígios de qualquer presença ali mas a do animal. Este cão tinha agora 1 ano, envelhecera na descida… O tempo passara para ele como nunca antes tinha passado.

Seguindo o caminho em frente, via-se uma escola primária, com aqueles postes onde outrora havia uma bandeira, antiga do tipo que se vê nas terras mais recatadas. Com um jardim pequeno onde havia baloiços e flores a crescer, o pequeno portão na entrada estava entreaberto e colocando a cabeça contra o portão de ferro o cãozinho abriu o portou e entrou na escola. Correu um pouco pelo jardim e apercebeu-se novamente que a escola se rodeava de verdes e grandes carvalhos. Mas, ignorando isso, o cãozinho continuou correndo pelo jardim até que encontrou uma porta aberta nas traseiras e, intrigado pelo que guardaria a escola no seu interior, entrou olhando para todos os lugares e viu à direita uma mesa perto da parede onde se sentaria o professor e, no resto da sala, mesas pequenas e cadeiras enchiam a sala. As paredes com antigas molduras onde talvez se encontrassem velhas folhas de papíis com pinturas e desenhos. E barulho na sala ao lado se ouvia. Ele saiu da sala e, agora no corredor, pode ver que nas outras salas se encontravam crianças estudando, podia-se ouvir o estudo…

E sem se aperceber o por traz do cãozinho uma mulher avantajada se aproximava e agarrando-o pela pele do seu pescoço disse “Este não é o teu lugar”. Chegando ao portão, a senhora atirou-o para fora do recinto da escola. Quando o cão se apoiou novamente no chão ele tinha agora 2 anos. As pernas tinham ficado mais longas e fortes, tal como os seus ombros e físico. O cão levantou a sua cabeça para se orientar depois de ser atirado para chão. Por segundos ficou olhando os carvalhos, o caminho por onde tinha descido e depois olhou novamente para a escola. Tudo agora diferente, nada parecia o mesmo que era a minutos atrás, o desconhecido tornara-se memória…

O cão encontrava-se agora a caminhar pelos caminhos perdidos do tempo, envoltos em vegetação verdejante com uma frescura viva, o cantar dos pássaros e todos os sons da natureza. Interminável o caminho, contínuo e sempre preenchido com charcos e lama, a terra deste terreno era castanha, antiga e recatada, quem já aqui passara era já velho demais p´ra caminhar ou para mesmo se lembrar. Mas o cãozinho continuava a caminhada, nada tinha para trás para além das suas memórias, ninguém que agora se lembrasse da sua presença na velha escolinha. Era como que um vulto, um neblina matinal que desaparece algures no dia, num instante incerto e nunca mais no dia regressa e é levada pela enxurrada de outros interessantes sentimentos do restante dia…

Mas o caminho continuava em frente, como nada mais o cão sabia o que fazer ele caminhava na direcção do horizonte. Este caminho foi preenchido por momentos de solidão, de observação de outros humanos e seres. Mas por anos e anos a fio, o cão não recebeu qualquer festa e se foi transformando, se transformou num lobo. Livre, selvagem e fugaz, vendo a neve cair e os fogos de verão queimarem a floresta onde um dia desceu para esta nova forma de lobo. Já tantas vezes os ponteiros tinham rodado e as folhas do calendário voado que estas recordações eram já confusões de sonhos ou memória na mente do lobo. Nos seus olhos podiam ver-se solidão e paixão, a vida que sente sempre que se está na presença de um lobo. Ele olhava do cume de montanha repleta de arvoredo a aldeia no fundo. Esta aldeia tinha crescido e progredido a cada vez que o lobo a olhava. Este lobo tinha-a vigiado e montado. Sem ele mesmo se aperceber que era isto que fazia e sem ninguém na aldeia ter o mínimo conhecer deste perdido animal ser…

Aníbal Treva Negrão
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