Estuque e Papel

Numa antiga casa no meio da cidade. Por entre os estuques e paredes falsas, nas fracturas da pedras escondia-se um livro, uma capa de cabedal escura e já desfeita pelas pontas e extremidades. Uma mulher que por ali estava  viu o livro. O que a trazia a casa era a vontade de a reconstruir.

A curiosidade foi mais forte e a sua mão aproximou-se do livro pegando nela e folheando, vendo vários desenhos a lápis e uma única página em branco que precedia a um texto:

“Nem sei bem que me trás cá. Talvez só cá venha porque nada mais tenho para fazer, e na esperança que alguém leia isto e eu posso crer assim que os interessados me ouçam, que as vidas que quero voltar a ver estejam longe de mim mas mantenham contacto comigo lendo este texto.

Estive perdido ultimamente, nos últimos meses não sabia o que fazer, tive receio de voltar a perder tudo, esse medo ainda fez com que mais rapidamente perdesse quem sou, perdesse a alegria que tenho, perdesse o meu ser, a minha alma, perdesse o que nunca quis perder. Não quero que isso volte a acontecer não quero que isso se repita, quero agora juntar as peças e reconstruir o que ficou destruído no passado. Será que isso é possível? Só o tempo o dirá.”

Tanto tempo passara por aquelas folhas de papel. Pareciam tão antigas que o resultado final das palavras já não parecia importar. O que aconteceu permanecera algures no tempo, sem se saber quem era a pessoa o qual teria sido o resultado final da espera…

Era evidente que alguém tinha  construído a habitação e que tinha enterrado o tesouro que era o livro entre a pedra e o estuque. A construção da casa tinha sido custosa e parecia ter sido feita por duas pessoas, parecia ter sido montada para um fim, mas nunca existiram registos de que a casa tinha sido habitada. Mas aquela livro começava a duvidar esse facto… Toda a antiguidade com esta velha habitação merece uma digna reconstrução, o passado, as memorias nesta casa, todas as boas ou más, são merecedoras de uma segunda tentativa de criação de algo novo, esta casa será um dia pretendida para ser recuperada…

Manuel Vela
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