Homem que carrega Mágoa

Há um Homem que caminha pelos trilhos e ruelas do mundo. Ele, cabisbaixo, move-se. Vai com uma guitarra dentro de uma mochila de grosso pano nas suas costas. A cor deste saco é já desgastada e perde a sua tonalidade, o tecido sempre resiste. Ele já viu chuva, sol, nuvens leves e calmas, rajadas e ventanias, chuvas intensas que obrigaram o homem a abrigar-se num qualquer alpendre. Esperando o tempo amainar o homem pegava na guitarra e começava embalando as gotas de água, numa bela melodia saudade, a música lenta começara com sons um pouco espalhados pelos segundos da chuva, mas de seguida começaram a ser mais fluídos e a chuva com mais intensidade caía.

Os dedos mexiam-se entre os vários acordes como as gotas beijavam o chão… Apenas o som da guitarra se ouvia por alguns minutos, a voz desta figura de homem não tinha ainda sido ouvida. A melodia fazia qualquer um sentir-se calmo e feliz, mas percebia-se nas mudanças de acordes que era um pouco sofrida e aparentava ter uma certo peso nela. Entretanto a voz um pouco rouca e afinada ouvia-se já as palavras ditas com uma certa rapidez numa certa conotação, “Chega ao fim o dia e eu já na chuva sorria, Um sorriso nem sempre é companheiro do riso“. Toda a fauna parecia apreciar os sons e vibrações da guitarra “Alma”. Tinha na madeira as palavras “Alma” o instrumento todas as letras escritas juntas e também elas pareciam dançar ao som da música.

“Que te quero novamente ver. Deixa a noção simplista de vida, que na verdade é uma confusão da vista, e se tão bonito era…”

A chuva pára após longas horas de solidão por parte do homem. Ninguém tivera a coragem de sair à rua com a chuva que caía neste húmido dia. Em suas casas toda a música os Homens fazia sorrir. Assim que a chuva amainara o homem continuou a sua caminhada, continuava tocando guitarra, som de quem caminhava com uma direcção e emoção no coração. Tocava e cantava,

“Sou solista, o homem que se despista, perde-se pelas encruzilhadas. Podem os trovões cair que minhas passadas se mantêm espaçadas.

Via-se que o homem carregava ainda algo mais que a sua “Alma” guitarra, um volume belo se montava na bagagem que ele carregava. Para os mais leigos seria impossível percepcionar mas eu vos digo que esta riqueza que o Egas carregava era a “Mágoa”. A mágoa de abandonar… Mágoa de perder sem nunca ter. Mas deixemo-nos de mágoas que o Egas caminha com este embrulho para não se esquecer de quem é, leva felicidade por todas as casas que o acolhem e retira para o seu fel de mágoa, a água do sofrer dos seus humildes amigos e a quem o acolhe pelo menos uma vez em sua casa. O seu cabelo é castanho como a noz, seus olhos são tão castanhos quanto a casca de noz mas tem na margem com o branco do olho um linha escura e preta…

Manuel Vela
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