Eco Soldado

Quinhão II – Migalha de Pão

Agora com os pequenos pés assentes no chão de carvalho, Olívia, estava no mesmo espaço e ambiente que os militares, tão festivos de comemoração, o Dia 1 de Dezembro. Tão república de liberdade e igualdade. Seu olhar de castanho noz, procurava seu pai por entre a multidão. Vestido com um casaco de corte refinado mas com uma simplicidade e humildade, suas calças de militar averdejadas  e um pouco mais apertadas pelos calcanhares, eram acompanhadas por uns baixos e  confortáveis sapatos de ponta redonda. Toda esta imagem deste Corpo deixava o observador aos pés da classe e honra que o sargento apresentava.

Olívia, busca por entre a multidão este homem, seu pai. A noz da pupila vasculhava  por entre a multitude de parede e pedra nesta casa. Tinha antes visto as letra do livro em couro corado, os contos de curtos recontos do soldado Ebo. Mas agora a menina Olívia era pedida no salão de ballet onde apenas as plantas e cortinados dançavam ao som do vento de inverno.

“Sons, simplesmente, sons do metal da montagem da arma. Metal a encaixar-se, numa sinfonia de calma e sintonia, os clicks e clacks que acontece sempre que a arma se tem que limpar, explosões, fortes abalos e sons… Tudo na minha cabeça… a voz do comandante a ecoar atrás da linha da frente. [ -Mantenham-se escondidos!]. O Cabo Lourenço mesma à minha a esquerda, não a mais de 2 metros de mim, escondido por entre duas pedra de mármore já um pouco enterradas por entre o solo. Eram quase da altura do Cabo os blocos da pedra, e por entre elas, a voz rouca do soldado ecoa na minha cabeça: [“Flanco direito a sucumbir”]. É como se, agora, de olhos fechados a tentar adormecer, isto após 36 horas sem deitar este saco de meu corpo nos lençóis de lã que por entre o escuro das pálpebras se forma uma quase real imagem. Existe por entre a minha mente, na dimensão do escuro de meus olhos uma outra realidade. O eco da minha memória monta-se como realidade dos “olhos encerrados” neste sonho de pedra que tenho no alpendre.”

“Olívia, estás a ouvir-me?”

Era seu pai perante a rapariga. “Então Olívia, o que procuras por entre os militares?”

“Nada, meu pai!” Pelo pensar da menina haviam as letras e histórias que lera no sotão. Sua reacção era ainda lenta. “Te procurava para te saudar com um beijinho”. O homem, Blasco Alecrim, baixou-se para que sua face encontra-se os macios e elegantes lábios de Olívia. Quase foi preciso colocar o joelho direito no chão devido à diferença de tamanhos entre os dois. Assim que a cara com a barba de 3 dias se tornou possivel alcançar, a menina de azul inclinou-se um pouco para a frente e beijou a face de Blasco, levantando-se em pontas de pés. Com tanta delicadeza o fez que seu pai a pegou sobre seus braços e colocou a seu ombros.

Os dois caminhavam-se agora por entre o verde militar. Olívia pensava lá do alto: Deverá ser assim que um gigante se sente, ver toda a gente assim de tão alta distância. Tão bom que é, e a bravura que é preciso para aqui estar. “Pai, que  se faz no serviço militar?” Sem qualquer aviso, como o primeiro tiro de cada confronto, a menina disparou a pergunta que Blasco não queria responder. “Tocas uma bela música no piano e eu depois to direi! Pode ser, Lívia?” A menina com um movimento descendente afirmou que sim e disse: “Pode, e tocarei Beethoven.” Num único movimento Blasco desceu a pequenina senhora de seus ombros para o chão e assim que seus braços a largaram Olívia colocou seu braços atrás das costas, mesmo no fundo destas e caminhou por entre o homens e as poucas senhoras fardadas na sala, com um classe que dava alegria de ver. Assim que chegou ao piano ajeitou a sua saia para não a estragar e sentou-se no banco vermelho que não tinha apoio para as costas, mas a menina endireitou as costas como uma verdadeira dama e colocou as mãos sobre as teclas do piano e inspirou. Começou tocando. De inicio ninguém na sala, a não ser seu pai, se apercebeu do belo som. A menina em azul continuava a tocar no castanho piano e por entre as notas pensava em mais escrita do Ebo Bravo Soldado.

Sem pão, sem nada para meter a boca, estou no meio da selva. Infiltrado por entre o verde, camuflado para não ser avisto. Há 3 dias que resto aqui à espera do alvo. Da vítima que mais uma vez terá de sucumbir, são as minhas ordens. Sem qualquer migalha de pão, tenho apenas o cantil de águas para me saciar a sede, mas até este já está quase no final, não me resta mais do que um dia de ração de água. Caso o General Albul não se entreponha entre a minha arma e o seu quartel terei sucumbido a toda este estado agreste da selva tropical. Mesmo sendo um extremista que prefere “limpar o lixo” com as próprias mãos, algo dentro de mim, no meu estômago, me diz que está qualquer coisa errada. Talvez seja já a fome a afectar a minha mente… o que não dava por um pão.

Olívia tinha já terminado a sua peça. Levantou-se do seu banco vermelho e caminhou para a mesa onde estava a comida. Sem proferir uma única palavra pegou em dois pães fofos e bem quentinhos, saídos à pouco do forno e caminhou para o jardim da casa. Sentou-se nas duas escadas, logo de seguida, à varanda, e começou comendo o pão tirando pequenos pedaços de pão com a sua pequena mão. Nisto ela não deixou de reparar que estava deixando migalhas de pão cair no chão. Quando voltou a levantar a cabeça, já dois castanhos pardais estavam pousados na varanda olhando o pão que ela tinha no seu colo e as migalhas que ia deixando cair no chão. Seu pai aproximara-se da porta e sem a abrir ficou olhando a sua filha na varanda…

Migalha de Pão (Quinhão III – Farinha de Trigo)

Ernesto Fulco Guerrero
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