Onda Curta

Onda Curta

Ondas, corrente e ventos empurram o mar, maré acima, maré abaixo. Forte rebentação e calma horizonte e, por entre estas águas agitadas por vezes, e, outrora calmas nos baixios, dança no fluído o polvo, molusco de oito. Com as suas patas a balançar e a empurrarem a água, impelindo o animal por entre a corrente marinha, em busca de comida.

O polvo nadava, por entre corais, algas verdes e viscosas. Nesta sua demanda por comida o polvo encontrou, meia enterrada na areia, uma boneca de porcelana. Bela a menina, de vestido vermelho acima do joelho, longo seu cabelo, cativou a fraca visão descolorada do polvo. Oito eram seus membros mas com recato e sem distender nenhum dos seus tentáculos de ternura,  o polvo se foi movimentando para as águas próximas da boneca. Vendo tão vistosa dama, o polvo começou a mexer os tentáculos para tocar no belo e macio tecido do vermelho vestido.

Primeiro tentáculo, subtilmente, o impeliu para perto do braço direito da boneca, mas antes de se aproximar o suficiente para lhe tocar e sentir toda a pele da mulher, o polvo retraiu-se receoso. O tentáculo número quatro, após alguns segundos de pausa no movimento do polvo, foi o seguinte a distender. Aproximava-se dos carnudos lábios da Boneca. Com ainda a ponto do membro dobrado, o animal aproximava-se cada vez mais da porcelana. Tocando os seus lábios somente uma vez em tão curto espaço de tempo, a boneca esboçou na sua pálida e apática cara um sorriso do mais brilhante já visto no mar. Mas o pobre cego polvo não avistara este movimento da bonEca.

Pensativo e com muita precaução no seu movimento e silhueta, o animal decidiu arriscar e com o tentáculo 1 pela esquerda e com o tentáculo 3 à direita o polvo abraçou a boneca com tanta ternura, delicadeza, sem ferir a bonecA de grande beleza. Um abraço de cuidado e afecto que o polvo fez com cuidado, os restantes tentáculos mexiam-se para que o polvo se mexesse num movimento ascendente e libertasse a boneca de entrar a areia.

A areia cai lentamente das dobras o tecido do vermelho vestido, para o fundo do oceano. O polvo continuou nadando para afastar a bela boneca do seu incompleto enterro na areia, e subindo para a superfície, contando que a bela boneca precisasse de um pouco de ar, ambos foram fustigados por uma agressiva onda. Se frágil a porcelana, a boneca não poderia ser apertada pelo polvo em demasia ou a sua elegante figura se partiria. Sabendo de tal consequência, o polvo tentou agarrar-se à mulher sem a ferir, mas a força da onda empurrara o polvo para longe da boneca.

O polvo fora parar à praia por entre a ondulação, mas a sua bela boneca tinha ficado a 1 metro do mesmo por entre 1 pedra e um morro de areia ainda na água, esta abrupta onda tinha sido curta para encaminhar a bela boneca até à estadia na praia do polvo.

A face da boneca regressara à expressão normal que nem alegria ou tristeza nela se via.

Manuel Vela
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