Camila Caixa

Conto Decaixa
{Camila Caixa}

Camila tinha hábito dizer que dentro de si existia um coração de ouro… Era de si regular contar às pessoas que no seu interior existiam flores e beleza. Camila dizia a Amílcar neste exacto momento, “Vou tentar guardar as coisas.”

A rapariga já de uma certa idade vivia por esta terra de Alecrim e por entre os verdes mansos pinheiros, a pequena rapariga  julgava ter no seu interior, protegido por uma forte fechadura,  tudo o que existia de bom em se ser alguém. Não falava para toda a gente mas quando surgia a pergunta de “Qual é a sua graça?” Ela respondia, “Camila Caixa, onde se guarda tudo de bom” A rapariga era bela, de cabelos ruivos e olhos cinzentos e sempre que dizia isto tinha em sua macia e vermelita cara de maçãs de rosto vividas, surgia um afável  sorriso. Mas neste instante conversava com Amílcar Chaves. Discutiam como preservar o bom que há em cada instante de alegria. A Camila proferia palavras dizendo que basta tirar umas quantas fotografias e o momento fica na nossa memória, até mesmo guardado no coração. Amílcar protestava dizendo que sem olhar para as películas de grafia o nosso cinzentito cérebro não se recordaria sequer de a imagem ter sido capturada para posterior recordação. A isto Camila ripostou com “Vou tentar guardar as coisas” que para mim são de substância…

Mas a substância pode dissolver-se e perder-se nos líquidos que correm pelo solo, ou ser levada pelo vento para distantes paragens. Camila começou dizendo que, dentro de si, mais uma vez, guardava tudo de bom. O que tinha vivido de bom, o que tinham por ela de bom agrado e generosidade. Continuava ainda dizendo que guardara cada pessoa que tinha e era importante para ela… Amílcar perguntava como cabiam tantas pessoas nesse lugar tão pequeno onde Camila guardava as pessoas.

“Cabem nesse lugar tantas pessoas? Onde é esse lugar ou espaço? Um dia destes quero ver o que lá está presente. Deve  ser um lugar de beleza inigualável!” Camila… Caixa tinha tanto orgulho em dizer que continha em si tanta coisa boa, e a sua alegria provinha decerto desse bom que em si acomodava. Os dois, Camila e Amílcar, trocaram ainda algumas palavras antes de a sua conversa terminar. Despediram-se com dois beijos na face e cada um foi para o seu lugar de repouso nocturno.

Umas semanas mais tarde, já a conversa tinha sido passada para a “História de Conversas” com o marcador Amílcar dentro da Caixa, Camila. Numa rotina quase diária de Camila, algo soltou no seu interior e subitamente algo mudou em si, a bela mulher Camila varria a entrada das folhas caídas e terra dos sapatos quando este momento tomou lugar…

Na sua mente veio desde o final do horizonte uma face e um nome… Octávio Lima…

Camila deixou cair a vassoura  no mesmo instante. Ela tinha se esquecido desta pessoa….

Muito poucos sabiam mas quando Camila Caixa tinha seis anos, uma rapariga na escola primária tirou de suas mesmas mãos a escova do cabelo preferida de Camila… Camila ficou estupefacta e paralisada com esta acção de sua colega de carteira nas aulas e palestras na escola. A outra miúda nem pediu ou foi gentil em pedir pelo utensílio e Camila ficou magoada com tudo isto… Uma semana se passou até Octávio, um rapaz de 10 anos, ter-se aproximado de Camila que nesse momento evitava chorar para não ser tido como infantil ou criança pelos outros… Lima aproximou-se de Camila e disse “Aqui tens de volta tua escova para o cabelo”. Camila levantou a sua cabeça para olhar para o rapaz e, quando viu a sua escova, sorriu e disse apenas “Obrigada”. Devo vos dizer que esta escova persistia ainda na vida de Camila que todos os Domingos antes de se deitar escovava o seu castanho cabelo.

Camila pegou no seu telefone fixo e rodando para marcar os número até ao último dígito, um 3, para finalizar o número de Amílcar… A conversa foi relativamente curta mas bem estruturada, na qual a mulher dizia “Preciso de falar contigo Amílcar”.

Marcaram os dois um dia para se encontrar…

Nesse dia, Camila disse o seguinte a Amílcar. “Não guardo assim tanto como digo, preciso de olhar para o interior deste caixa e ver o que se guarda no seu interior.” Amílcar Chaves disse em resposta “Vamos então abrir tal caixa para ver o que está dentro dela.” Depois de Chaves ter quebrado a fechadura da caixa, ambos olharam para o seu interior e no seu interior avistaram na realidade que o que a tal caixa guardava era nada mais que  todos os erros de defeitos de Camila. Estes defeitos cresciam no interior, junto à superfície interior da caixa como ervas daninhas e cotão…

Camila após alguns segundos disse as suas mais certas e verdadeiras palavras de sempre “O Otávio Lima limou e limpou o exterior de caixa agora depois de tu a teres aberto é tempo para mim de a limpar e começar mesmo guardando no seu seio interno as memórias e sentimentos que existem em minha vida…”

Aníbal Treva Negrão

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