Enterro do Gato Ego Schrödinger

Uma criança abria a porta para a calçada das ruas de uma cidade que fora outrora romana. Pela pequena abertura que a menina abria saiu o gato Ego. Chovia um pouco, mas isso nunca impedia o gatinho de sair da sua regular rotina que sustenta a sua ideia de liberdade do seu “dono” como ele gostava sempre de o ver… Era belo o gato, ostentava um pêlo dourado e bem macio. Seus movimentos eram elegantes com um toque de realeza. Era um gato de boa aparência e educado.

Nesta sua saída à rua, o gato pretendia ir tomar algo com os seus companheiros gatos, aproveitar a noite de luar para uma festinha por entre os recintos da cidade. O gatinho passeava para o estádio (normalmente, por lá havia sempre ratos para apanhar e umas boas bebidas, especialmente nesta fase do ano…). O caminho para o recinto era calmo e o gato apanhou o autocarro para chegar lá mais rápido e estar mais despreocupado.

Talvez uma ante-visão do gato seja precisa: o gato tinha uma personalidade que era bem atenciosa com os outros, ele por vezes era atento aos outros e cuidava dos seus mais novos e fracos gatos no quarteirão. Não se podia dizer que era um mau gato… Mas nos últimos tempos o gato tinha começado a comer uma nova marca de biscoitos para gato, os Biscoitos Admiração. Bem, sem saber explicar, a menina Lídia, começou a notar diferenças no seu gato… Ele passava mais tempo com um postura de importância, julgava-se por vezes bastante bom no que fazia e gabava-se aos seus contemporâneos que era um bom gato, um gato habilidoso. Dizia que tudo o que tocava era bonito e bem feito, mas, para vos dizer a verdade, o gato não fazia nada de mais. Lídia começou a pensar que a comida tinha feito algo mais biológico ao gato e lhe estava a fazer mal. Na consciência do gato até estava a fazer bem. Bem, o gato era duas coisas em simultâneo, um bom gato e um gato egocentrista. A única forma de descobrir o que ele era seria abrir a lata de comida e descobrir o que lá tinha… mas o gato não deixava ninguém tocar na sua comida. De há uns dias para cá tinha até atacado a mãe de Lídia por tentar tal façanha.

Mas agora o gato no recinto do estádio procurava mais comida por entre os outros gatos e as festividades… Poucos eram perspicazes o suficiente para reparar que o gato está agora bastante gordo e cheio de banha e com o pelo a cair e a enrugar. Bem, muitos gatos nunca abriram a lata dos Biscoitos Admiração e a sua alimentação é baseada neles portanto ainda estão no paradoxo de Schrödinger, proveniente do gato Ego Schrödinger. Pois este gato é tão bom e carinhoso como uma coisa ruim e repugnante. Para esclarecer as coisas basta se aproximarem do gato e abrirem em frente a ele uma lata de Biscoitos Admiração.

Ernesto Fulco Guerrero
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