Tumba

Foi-se tudo numa brisa de verão, o levou, levou e empurrou-me para o chão. Caí de costas para a terra mas o rei tinha de ser deposto sem guerra, neste chão rola agora a coroa de uma história sem estofo.
A Terra agora encosta-se às minhas costas. Deve ser o meu funeral ou enterro, mas a terra é fria e pacífica neste lugar de quem fica dá para ver o céu, já o teu belo véu de seda e carinhos vai no fundo longínquo do caminho de pó e poeira. Não resta nada à minha beira, apenas eu, nivelado com todos os animais, encostado à terra repousando agora sem ser abafado, o ar no chão e mais rico. A queda em que agora fico, encheu meus pulmões e limpou o negro do meu coração.
O vento agora já não me empurra para a queda, pois agora no chão posso apenas cair na seda dos sonhos. Talvez a tempestade venha do mar mas agora, deitado, sou como uma pedra, frio a endurecer. Rosas cresceram decerto por entre as fissuras desta pedra macia ao toque. O pedregulho anseia e aguarda a chegada da água, agora que o vento já chegou e seu equilíbrio parou no rés-do-chão desta terra que nunca antes tinha mas agora berra para que eu me levante, mas eu adiante digo, deixa-me ficar olhando as luzes de céu lembrando todas as memórias. Sou um caído objecto ou brinquedo da caixa de brincadeiras e resto neste plano lugar pelo tempo que adorar.
Crescem já plantas perto dos meus braços e pernas não sei quanto tempo estive deitado, mas vejo apenas vida verde em redor e atendo para consulta a chuva que me cai na cara e no corpo. Lava-me ela do pó dos carros e máquinas e neste verde estou agora. Não sei quanto tempo já passou pelo relógio mas a água fastio molha-me e, decerto, fará crescer em minha pele flores e ervas. O fel de águas do azul mar ou céu me deixará, por fim, fazer parte da natureza. Permitam-me que repouse assim no esquecimento sem fim. Sem memórias minhas no último lugar onde me viram. Esquecimento para sempre, o repouso em videiras abraçado para sempre por elas e alegre no ser suporte para tão cheirosas flores e coloridos ardores, os presentes de amores que por cá passaram. Talvez um dia passem por mim e vejam o belo jardim mas desconhecem que eu por ali estou…

Ernesto F. Guerrero
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