Cai-Chuva

“Estou a cair no mesmo lugar de sempre, vindo de cima, nem me lembro de ter subido esta encruzilhada.
Esta montanha da qual agora caio, não escorreguei ou perdi o equilíbrio. Simplesmente caí, não sei quando começou, podia jurar que sempre estive em queda, queda livre. Perpétua, desde quando é que eu ascendo?
Mas reparei hoje, por entre as gotículas de chuva, que meu corpo as ultrapassava em movimento. Vejo por entre a brisa e o nevoeiro o chão ao qual mais uma vez acho que não cheguei mas já o senti tocar, ou os meus pés ou as minhas costas…
Desta vez parece que vou em frente mesmo da cara para ele…
Na realidade até é bem belo, rico em cores, talvez mais que o arco-íris que vejo afastar-se de mim. Sim, está a chover, mas, como sempre, por entre as nuvens há luz, a do Sol nada mais… Neste chão para o qual agora caio, a cair para o mesmo lugar de sempre, há para mim neste solo um lugar guardado. Reconheço mesmo ao longe as formas na terra e a erva amassada, são as de meu corpo.
Já lá antes estive e, como sou freguês habitual, ele guarda sempre para mim um bom lugar, confortável e protegido das silvas ou ervas daninhas..
Um espaço confortável para mim. Guardado com a esperança do meu retorno.
Descer até ele vou mais uma vez. É interessante, agora nesta nova queda, que até estou a apreciar a beleza que há em cair de encontro ao lugar de sempre. Escuro e um pouco húmido, mas eu já não engripo. Meu corpo é agora forte, tal como a mente que reconhece que vou voltar a cair para este lugarzinho, este cantinho no céu, o meu cantinho na terra… Acho que ainda tenho direito a um, nem que a sete palmos da superfície.
Nada de alertar eu sou necromante e esta carne não morre ou desaparece enquanto a mente perdurar na resistência, a revoltar-se meu Camarada Che, meu amigo!”

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