Boneca de Bolso em Farrapos

Prólogo

Um Pequeno peluche de um rapazinho, feito à mão, cosido com linha e pano, tecido pelas mão, pela carne, mas a boneca estava caída no chão, como que a vida de alguém estivesse caído na sarjeta. O pano da roupa do peluche parecia farrapos velhos descosidos e sujos com pó e areia. Com um sorriso, a boneca repousava no seu pousio, os seus olhos fitavam o céu- eram acastanhados bela cor da madeira, da árvore do crescer. Ninguém sabia como tinha chegado ali a boneca, passam sobre ela muitas figuras de crianças, mulheres e homens tão apressados que nem a  vêem. Muitos destes tiveram para a pisar por vários momentos, mas ela não mexia. Continuava no mesmo local olhando o céu. Desta vez que reparei nela. A boneca tinha um sorriso, era a sua boca feita de linha vermelha, e arqueava-se produzindo um carinhoso e simples sorriso.

Acho que tinha passado despercebido este sorrir do boneco … por vezes parecia um rir e brincar. Com o passar do tempo o sorriso não terminava nem mudava, permanecia no mesmo estado. Rir, sorrir ou, simplesmente, ironia? Já nem dava para perceber o que era o sorriso, o seu sentido era obscuro e desconhecido.

A Malha da sua roupa tinha sido feita em Portugal algures por entre as velhas florestas e campos entre o rio, no norte do país. Era talhada pequena, feita pelas mãos da experiência e sabedoria. Mas ela continuava a repousar no solo com aquele sorriso de alegria. Sua cabeça arredondada e bem macia terminava na nuca com uma pequena ruga que continuava, indo de encontro com a linha bege que fechava o embrulho contendo o esfulho dentro, a palha e lenha que tinha sido usada para encher e preencher o interior da boneca. Preenchida e constituída de simples palha, o alimento de animais e estofo para cortes, não era um espantalho mas permanecia no seu mesmo lugar fitando sempre o céu, que contava ela ver no céu?…

Será que ela queria mesmo ver algo no céu?

O seu olhar tão pacifico olhando o céu… Os seus braços abertos em descanso.

Belimunda era o nome da mulher que a tinha cosido e enchido a boneca. Era uma boneca para crianças mas seu olhar e face pareciam ser de um certa idade…

“Crispim, era um rapaz que vivia disjunto da normalidade. Ele nascera numa oficina. Nascera no que é o lugar de criação e invenção … tralha e ferramentas perdidas por entre a oficina. Vira este mundo com seus, em tom acastanhados, olhos. Seu pai era o mecânico e sua mãe trabalhava a terra, cultivando, e tecendo a roupa que ele vestia. A mãe Gaia era a sua criadora e aleitava e amamentava o pequeno Crispim que nascera fraco e com pequenos pés, tremendo mesmo com o seu nascimento no termínio, no por-do-sol de verão. Este menino fora criado por entre o verde e azul dos campos no fundo do vale, vendo peixes ascender pela corrente do rio Vez para a sua desova, por vezes em dias mais ensonados Crispim conseguia avistar as lontras perto da represa tentando apanhar o peixe. Mais abaixo desaguava o rio Semconta e as lontras acasinhavam-se por entre um buraco na margem entre a represa e o voz se Semconta.

Sua mãe era professora, ou teria sido se tivesse optado por exercer tal aconta, sendo assim Crispim tivera desde cedo, quase sempre pela madrugada aulas com sua atenciosa e bela mãe. De tão bela que era por vezes Crispim perdia-se olhando os cabelos de sua mãe pensado se algum dia teria uma mulher assim… Mas isso não durava muito pois sua mãe Belimunda se apercebia e dizia logo tão docemente “Crispim, está outra vez perdido a olhar o céu?” E o menino voltava a curvar-se para o caderno e continuava escrevendo.

A boneca repousava, o tempo tinha já passado e ela continuava ali como se resto do mundo lhe fosse indiferente… por entre a multidão ecoava o grito de uma criança. “Vens brincar, Crispim, ou vais continuar a olhar para as árvores crescer?” Era uma menina que caminhava perto da boneca e até tinha olhado por pouco tempo para ela, mas continuara correndo para o campo de futebol…

Narrativa Crispim – Acto I

Ernesto Fulco Guerrero e Manuel Vela
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