“Tristão Salvador e Maria Solidão”

“Tristão e Maria Solidão”
Reconto e conto de tristeza e solidão
 Eckert “Egas” Malmquist

“As pessoas falam da Solidão como já a tivessem conhecido. A Maria Solidão não se dá a conhecer a todos. Falam como se a solidão fosse tão comum quanto a chuva. “Eu sei o que é estar sozinho”… Estar sozinho e solidão não é o mesmo! Até porque solidão é sentir-se sozinho quando acompanhado. Falam todos nestes dias que sabem o que é estar sozinho, que já estiveram em solidão. Meus amigos uma vez em solidão e ela nunca mais te larga.
Todos têm palavras para alguém que diz sentir-se sozinho, todos têm conselhos e soluções para não se sentirem porque todos dizem já ter passado por solidão…
Querer companhia e estar sozinho não é o mesmo!
Todos falam da Maria Solidão como se a conhecem, mas quem sente a Solidão raramente fala, ou a pronuncia numa conversa!
Fala, fala de Solidão, porque se falas assim tanto dela é porque ainda não a sentiste realmente!
Quando a Maria Solidão bate à porta, uma pessoa tem que ter boa educação e abrir-lhe a porta. Ela não pode ficar ao frio, incha e torna-se muito grande, gigante até. Solitário, com a companhia da solidão, a tomarem café e chá juntos, a Maria Solidão gosta de variar um pouco! Sozinho com ela a conversar sobre a política do país, ela tem muito tempo livre, o que lhe permite estar atenta a detalhes que escapam a toda a gente… É por esta razão que ela aparece somente quando estás sozinho para fazer companhia.
A Solidão às vezes não fica somente sentada num canto a passar despercebida no silêncio, a música e melodia do silêncio. Mas mais tarde ou mais cedo, como hoje, ela vem bater com delicadeza à porta!
Porque a Maria não se vai embora, persiste aqui dentro, dentro de meu casulo. Insiste em permanecer até em lavar os pratos sujos e despejar o lixo. A Maria Solidão até que é gentil, e ajuda nas lidas da casa, até mesmo no estudo tem como ajudar.
Maria Solidão, agora eu, em casa, sento-me na secretária para te escrever uma carta. Sinto a tua falta, todos os dias que me deito. Sempre que escovo os dentes te vejo do outro lado do espelho.
Maria, traz-me alegria da terra Solidão, porque eu por cá já acabei com todos os pacotes de alegria que tinha, até já tive que pedir alegria emprestada ou mesmo usar alegria em segunda mão…
Maria Solidão vem para a minha beira. Estou sozinho!
Fazes companhia, falaremos até altas horas da noite, sobre arte, música, poesia e prosa. Marte mesmo, até sobre o universo.
Já sabes onde moro é só cá apareceres!”
(continuando!)
“Maria Solidão ontem chamou-me no meio da multidão. Estava eu no café quando a vejo-me acenar lá ao longe, só com a mão e a cabeça à minha vista. Ela me chamava no meio do barulho, pedia para que eu fosse ter com ela para um lugar mais calmo. Quando me comecei a aproximar dela apercebi-me que ela trazia um embrulho na mão… Assim que lhe dei um abraço e dois beijos na cara ela me disse: “Tenho algo para ti, estava na rua e pensei em ti. Vim cá ter para isto te dar”
Entregou-me o que tinha na mão. Uma caixa de cartão simples. Abria e de dentro saiu o Silêncio… A calma que ele traz.
Decidi então caminhar pela rua a aproveitar a “música” que a minha amiga solidão me tinha dado. Não era o meu aniversário mas ela é mesmo assim… do nada traz algo para mim!”

“Não sei quando isto começou, se nas minha caminhadas ou passos de bebé, talvez até o seu espaço e tempo tenham tido início no momento da dada luz. Este lugar onde me apresento não é bem um lugar por assim dizer, é mais uma constante queda, no obscuro. Julgo que este cair para o abismo veio como causa das minhas acções. Esqueçam todas as noções de movimento ou deslocação porque em momentos será isto claro ou não para mim {é mais escuro para que seja aqui clarificado} em instantes esta queda cessa de ser tal coisa e tudo se assemelha a uma imobilidade permanente. Há possibilidade que tenha sido eu a caminhar nesta direcção. Não é propriamente caminhar pois não há direcção em frente ou trás, resume-se à direcção para baixo, isto é, tudo mais atirar-me a este precipício, o início de algo perigoso. Mergulhado para o perigo? Não sei se concordaria com essa mesma frase, pois na realidade em tanto tempo caminhado, ou em queda diga-se não há ainda esperança ou sinal ou agoiro do subsolo. Este buraco talvez não tenha fundo, tempo prolongado estou neste perpétuo estado físico de constante queda.

Me escondo no escuro, não por ser feio ou ter vergonha do que sou, não sou propriamente um monstro. Sou admirador do escuro que permanece em constante queda para o negro. Houve, outrora, na aurora disto tudo, tempo e instante para receio e medo, mas agora esse recear escasseia. Seja eu a adaptar-me ou o escuro a entranhar-se, estou agora mais à-vontade com este cair. Houve na minha espinha a presença de calafrio e arrepios por várias ocasiões, mas a dúvida no escuro surge. Pode tudo isto ter sido causado pela corrente de ar. Esta corrente apaga as minhas rugas elas e eu em oblívio ténues recordações minhas há nas pessoas que vi ao passar para baixo mas algumas vezes revejo essas mesmas caras. Diga-se que manter os olhos abertos com esta força contrária do vento cause alguma ardência na vista, ofusca e in-discerne o que a retina foca.

Mas agora me sinto confortável no escuro… talvez eu seja invisível por permanecer nele agora em quase o tempo inteiro… para me avistares tens de até ele caminhar. Não é frio ou húmido este lufar escuro, ele me recebeu de braços abertos e calorosamente. A solidão me aceitou…” Este bilhete fora escrito por Tristão Salvador à bela donzela Maria Solidão. Tinha-o deixado ainda hoje na entrada de minha casa, mesmo na soleira da porta, quase molhada e com algumas pingas no envelope. Esta fora a primeira carta que ela me escrevera. Sim, um pouco estranha, mas a Senhorita Solidão tem as suas qualidades únicas e que eu aprecio!

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