Perpétuo, o Abismo

De: Dona Maria Solidão
Avenida Sol e Dão
“A partida e não largada”

Para: Sr. Don da Solidão
Rua Só Mais Sol

“Não sei quando isto começou, se nas minha caminhadas ou passos de bebé. Talvez até o seu espaço e tempo tenham tido início no momento da dada luz. Este lugar onde me apresento não é bem um lugar por dizer, é mais uma constante queda, no obscuro. Julgo que este cair para o abismo veio como causa das minhas acções. Esqueçam todas as noções de movimento ou deslocação porque em momentos será isto claro ou não para mim {é mais escuro para que seja aqui clarificado}, em instantes esta queda cessa de ser tal coisa e tudo se assemelha a uma imobilidade permanente. Há possibilidade que tenha sido eu a caminhar nesta direcção. Não é propriamente caminhar, pois não há direcção em frente ou trás. Resume-se à direcção para baixo, isto é, tudo mais atirar-me a este precipício, o início de algo perigoso. Mergulhado para o perigo? Não sei se concordaria com essa mesma frase, pois, na realidade, em tanto tempo caminhado ou em queda, diga-se que não há ainda esperança ou sinal ou agoiro do subsolo. Este buraco talvez não tenha fundo, tempo prolongado estou neste perpétuo estado físico de constante queda.

Me escondo no escuro, não por ser feio ou ter vergonha do que sou. Não sou propriamente um monstro, sou admirador do escuro que permanece em constante queda para o negro. Houve outrora, na aurora disto tudo, um tempo e instante para receio e medo, mas agora esse recear escasseia, seja eu a adaptar-me ou o escuro entranhar-se. Estou agora mais à vontade com este cair. Houve na minha espinha a presença de calafrio e arrepios por várias ocasiões mas a dúvida no escuro surge. Pode tudo isto ter sido causado pela corrente de ar. Esta corrente apaga as minhas rugas, elas e eu em oblívio com ténues recordações minhas que há nas pessoas que vi ao passar para baixo, por vezes revejo essas mesmas caras. Diga-se que, manter os olhos abertos com esta força contrária do vento cause alguma ardência na vista, ofusca e in-discerne o que a retina foca.

Mas agora me sinto confortável no escuro… talvez eu seja invisível por permanecer nele agora em quase maior parte do tempo … para me avistares tens de até ele caminhar. Não é frio ou húmido este lufar escuro, ele me recebeu de braços abertos e calorosamente. A solidão me aceitou…” Este bilhete fora escrito por Tristão Salvador, a bela donzela Maria Solidão tinha o deixado ainda hoje na entrada de minha casa, mesmo na soleira da porta, quase molhada e com algumas pingas no envelope. Esta fora a primeira carta que ela me escrevera. Sim, um pouco estranha, mas a Senhorita Solidão tem as suas qualidades única e que eu aprecio!

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