Dança Sem Par

Hoje, enquanto lavava as minhas mãos na casa de banho, logo de manhã cedo, lembrei-me da bela Maria Solidão. Não a tenho visto desde que ela me mandou a carta no outro dia. Saí da casa de banho com as minhas calças do pijama vestidas e em tronco nu, caminhei para o meu guarda-fatos para vestir a minha roupita alegre e quentinha – com o frio que tem estado é preciso estar bem agasalhado.

Saí então de casa para me encontrar com o Basílio, a Deotília e a Lubélia sem dar mais um instante de pensamento sobre a Sr. Maria. A Bela senhora Maria que, ao fim da tarde, me vem esperar ao local que eu não a pensava ver. E assim que a vejo apercebo-me: Tenho uma relação com a Maria!

Como é que só agora é que apercebi que tenho uma relação de amor a Solidão? Esta senhora que me faz companhia nos momentos mais estranhos, seja qual for o local onde eu estou, ela arranja uma forma de se encontrar comigo. Bem, claro que ela não pode estar sempre comigo, tem outras pessoas que são importantes no seu dia-a-dia. Pessoas que são parte dos seus afazeres. Eu já não a via há algum tempo e agora, no fim da tarde, veio à minha espera, logo à saída do prédio do meu amigo Basílio. Ela logo ali a sorrir, pronta para me saudar com dois carinhosos beijos.

Na sua macia e escaldante voz pergunta-me a bela mulher, “Onde estavas a pensar jantar Tristão?”

Eu apenas fiz uma pausa sem saber bem o que responder e admirado com suas tão belas linhas e curvas, ela estava hoje mais bela que sempre. Só vê-la fez-me sorrir. Entretanto ela continua falando, “Como já não te via algum tempo achei que podíamos conversar ao jantar.” Caminhei então até ao restaurante habitual onde vou jantar, com Maria a contar-me o que ela tinha feito estes dias. Dizia-me que tinha estado a trabalhar num novo projecto chamado “A Dança Sem Par”. Durante 20 min fiquei apenas em silêncio ouvindo ela contar-me o que era este projecto. A Maria é uma pessoa bastante artística e ela diz já ter conhecido muitos artistas, desde Camões, Almeida Garrett, Júlio Pomar, mas diz que há um Pessoa que lhe é bastante querido. Mas voltando ao projecto… era uma dança feita apenas por uma pessoa. Ela ia-me explicando os passos e posturas da coreografia e devo eu dizer que era uma bela dança, “Até a mim me dá vontade de dançar e eu devo dizer que sou um pé de chumbo!”, respondi eu enquanto comíamos já sentados os dois no restaurante, ouvindo antigos Blues como música de fundo e bebendo vinho tinto.

“Mas que pessoa mais conversadora”, pensava eu enquanto a via mover-se como se ela não fizesse parte de nada do que nos rodeava. Ela estava a tentar exprimir a coreografia e algumas pessoas já a olhavam no restaurante com um ar de riso e espanto.

Claro que sei que a Maria é uma pessoa muto diferente do resto. Ela tem uma calma e serenidade que nunca vi em ninguém e quando me faz companhia “abraça-me” nessa serenidade. É bastante atencioso por parte dela. Eu sei que ela não aparece muitas vezes para jantar comigo, mas quando aparece vamos tendo conversas como se ninguém nos ouvisse. Chegámos até a dançar ao som de música que apenas os dois ouvimos. Já me vieram dizer que ela não existe e até já me chegaram a pedir para que a apresentasse, chamem-me egoísta mas acho que às vezes, a quero apenas para mim e outras vezes gosto de a partilhar como o Basílio ou outro amigo. Se bem que ela tem medo de multidões. Já me disse algumas vezes que não consegue estar num local com mais de 5 pessoas, e sim, às vezes ela abandona-me quando muita gente vem ter comigo. Mas ela despede-se sempre de forma tão atenciosa que nem tenho coragem de lhe dizer que devia ficar mais um pouco. Não há muito a fazer, acho que a Maria nunca se vai sentir confortável com multidões e eu já aceitei assim.

O jantar continuou. Ela pediu Semifrio de Bolacha, o pajem dizia que era de Bolachas Maria e ele achou engraçado e pediu, eu pedi um Cheesecake de Maracujá. Pouco se falou durante a sobremesa, ambos gostamos de doces e fez-se silêncio enquanto cada um saboreava a comida. Levantámo-nos pouco depois de termos terminado e eu aproximei-me do balcão para pagar, enquanto pagava só respondi, “Eu pago já que a Maria me fez companhia hoje” Ela sorriu e ficou um pouco rosada nas maçãs do rosto. Para não a deixar envergonhada, perguntei “Que achas se formos até ao Bflat?” Ela sorriu suavemente e disse “Hoje está mesmo no dia de uma noite de Blues ou mesmo Tom Waits. Era a forma perfeita de acabar a noite…”

Durante o nosso tempo no Bar fomos conversando um pouco sobre tudo, e não vou aqui entrar em detalhes sobre a noite, resta-me só dizer que a Maria Solidão e eu estamos cada vez mais próximos. Dançámos um pouco os dois antes de regressarmos a casa, eu fui leva-la à porta de sua casa e despedi-me dela com um simples beijo na cara dela e ambos nos despedimos “Até Breve!”

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