Acucla Osso

Coser com linha e agulha

Narrativa Crispim – Acto II

 Belimunda tinha em sua mão algo pontiagudo. Era feito de osso. Oco mas resistente, com uma ponta aguçada e na sua raíz um pequeno orifício por onde se enrolava e passava no seu interior uma linha vermelha. Os dedos da mulher seguravam com precisão e delicadeza a ferramenta. Com a mão direita, ela segurava também dois nacos de tecido juntos com as suas fronteiras encostadas e alinhadas. Com a ponta da agulha, perfurou os dois panos de malha uma vez, trespassando ambos de um lado ao outro. As fibras da malha mantinham-se ainda consistentes e a linha, a linha era de uma resistência superior à de outra linha qualquer, podia-se ver que tinha sido tratada para resistir. Curada e para se tornar resistente, muito mais que uma simples linha, era uma fibra, quase um tendão ainda vivo inquebrável e robusto. Esta linha era a costura dos dois nacos de malha e como empalhamento a bela Belimunda enchia a boneca com palha, metal, pedras, todos os tipos de tralhas e com as suas próprias lágrimas e alegrias. Era a taxidermia deste corpo de boneca…

A Senhora Belimunda era treinada e experiente em taxidermia de animais, desde pequenos pardais, a texugos, raposas e cisnes e falcões. Na sua cabana de ferramentas estavam expostos, neste momento, um ornitorrinco e um casal de cisnes brancos mais elegantes que ornitorrinco e em poses de dança. O pato-mamífero com cara de ensonado repousava numa pedra e, na esquina onde ela cosia, estava uma esquiva e bonita lontra olhando quem entrava na sala com um ar curioso e receoso.

Esta experiência de curtume e embalsamação faziam de Belimunda uma mulher conhecedora de dar vida ou aspecto de tal a coisas mortas. E enquanto cosia a boneca ela pensava em fazê-la o mais viva possível… Com o dedal no seu dedo indicador ela continuava a subir do que seriam os pés da boneca para a anca… Nada se ouvia ou sentia mudar na sala enquanto ela cosia até o seu acanhado grito se ouvir, “Ai, piquei-me”, somente esta frase tinha quebrado a calma e serenidade que havia naquele local. Era sempre assim, quando ela embalsamava, mesmo em silêncio parecia haver vida ali, e mesmo trabalhando com inanimados, a Belimunda tratava os animais que ali iam repousar como se ainda chegassem a ela vivos e como se ela os curasse das suas maleitas enquanto curava a sua pele e músculo sem vísceras… O pano agora, já ganhando forma de um corpo nas suas mãos, aparentava-se desgastado. Pela cor que tinha, demonstrava uma certa descoloração, e as manchas por entre o novelo dos nacos de malha indiciavam que algo um pouco mais ácido ou corrosivo tinha alimentado os nacos de malha do novelo do tecido.

Ela começou então cantando, enquanto fechava e acabava a cabeça da boneca, que era de um outro tecido mais pálido em tom bege… Ela cantava, perfurando e remediando os buracos nos tecidos…:

“Todos os dias me pergunto: Mora neste corpo um defunto? Perdida já a alma por estradas macabras. Todos os dias me pergunto: Porque me ponho eu à frente dos canhões? Para que os outros possam continuar intocáveis? Nunca feridos com as balas, Limpos de nódoas e sangue! Sempre no mesmo vai-vem Da madeira do bumerangue! Guerreiro marcado e ferido em combate. Mas esta alma nunca se abate! É alma de Abade e elegante. Talvez perdida para a sua Irrealidade em dias de chuva. Por vezes deambula por entre a calçada, Nas águas da chuva e na caniçada Persistente erguida, jamais altiva

Combatente soldado cosido e emendado Como uma velha boneca de farrapos Detentor de força até a fibra dos seus fiapos Já nada sou e tudo nunca fui. Por entre mares e marés vou de lés a lés. Passo por entre os corpos de estorvo à rés! Até fim do mundo, Alma minha comandante! Até ao infinito e mais além! Sempre pelas marés Daqui, de lés a lés”

No interior da boneca…
A mais bela e destruidora explosão aconteceu a 13, não no dia 13, nem as 13 horas, foi simplesmente no 13 de azar.
No centro, mesmo no interior, existe um buraco, uma brecha, uma minúscula e invisível brecha. Esta brecha era o destino de muitos. Desta brecha se passava e ultrapassava qualquer obstáculo, mesmo ele gigante, enorme ou monstruoso. Não sendo exactamente um buraco negro, nem negra era a brecha, era um simples raio de luz.

 Desta fenda emanava a luz e para ela era despejado qualquer lixo, dejecto ou desconforto. Desgosto ou ferida era sarada nesta fenda. Pouco do que alguma vez pisou o outro lado da fenda regressou, mas quando a viagem de ida e volta é concretizada o que regressa é renovado, abençoado e renascido. Claro que nada se cria ou se destrói, mas esta fenda parecia ser a fonte de juventude, o hospital para os doentes terminais, o ferido de guerra desmembrados ou quebrados, esta era a fenda de redenção e cura.
Mesmo por baixo deste corpo de pano, há uma camada de grutas, húmidas e obscuras, desconhecidas e esquecidas. A capa deste corpo, e romance é bela e macia, mas logo abaixo está esta camada de grutas, onde tudo se esconde e pouco se responde, e bem lá no fundo, para quem até lá caminhou há algo, um fenda pequena de luz. Não julguem que é uma passagem simples é um caminho pecaminoso repleto de insectos, chagas e vidros no chão. Há quem até já tenha visto monstros e criaturas estranhas nestas entranhas. Para os merecedores e lutadores há a fenda, a brecha de bela e cintilante luz, a aurora boreal, do nascer e morrer do sol onde tudo acaba por ir parar. Estagnar ou fluir para lá ou para cá da fenda deixando preso nas grutas e galerias subterrâneas o que não passa ou é recusado pela fenda…

A boneca, o trapo de farrapos está roto na superfície, é a falha da capa deste corpo, cosido e remediado mas está também furado no interior, nesta brecha…

Nesta gruta há ainda gases inflamáveis, gases intoxicantes e sufocantes. Qualquer pequeno pedaço de chama, a simples faísca pode sucumbir estas grutas e na sua superfície áspera, no seu pavimento que atrai o Fósforo para a fricção, este se decompõe e arde.
O Palito de fósforo… friccionado pelo Lux contra as rochas da caverna, o gás inicia a combustão, numa rápida explosão a fenda se funde com gruta… a fenda nasce para a chama… e assim que se termina a linha no olho do Crispim ele começa a ver… a luz entra nos seus olhos e a brechas nascem nas suas entranhas…

(numa instante tudo congela até o tempo e tudo se imobiliza – continua…)

Ernesto Fulco Guerrero e Manuel Vela
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