Geleia de Pérolas

Numa rocha junto à rebentação, estava sentado um marinheiro com a rede da pesca atada ao seu peito, com uma corda na diagonal e olhando a sua mão. O marinheiro estava descalço na enseada e na sua mão tinha algo, algo que ele fitava admirando e bajulando. Não havia ninguém na areia e o pescador estava ainda molhando com a água e sal do mar.

Ele mergulhara minutos antes para recolher as redes e, enquanto submerso, rodeado de água e sal, avistou alguma coisa a brilhar junto das algas. Parou, olhando o local de onde vinha tal brilho e, segundos depois, a mesma luz voltou a cintilar do fundo do mar. Numa braçada impulsionou o seu corpo para o fundo do mar e começou a nadar na sua direcção. Com a sua mão direita, o marinheiro Baqui desviou as algas verdes que encobria a areia e pedras e o brilho. Assim que as algas cederam e se afastaram deixando uma vista livre, Baqui pôde ver uma estatueta de ferro sem qualquer corrosão… ao seu lado estavam duas ostras boquiabertas com duas douradas pérolas. As conchas dançavam ao ritmo da corrente marítima e pareciam fechar-se ao sinal de qualquer aproximação às pérolas. Baqui ficou dois segundos olhando a estatueta e tocou-lhe somente com o indicador esquerdo mas nada mudou nas ostras ou na estatueta. Suavemente ele agarrou a figurilha e aproximou-a, tentando olhá-lha no seus olhos. Estes eram metálicos mas pareciam reflectir o mar, pareciam mexer com a rebentação e observar o mar. Assim que ele ia colocar a estatueta no seu lugar original, viu as duas ostras cuspirem as pérolas na sua direcção. Largou a estatueta que caiu suavemente no mesmo local do qual foi retirada ficando inclinada desta vez. Uma das pérolas atingiu Baqui no olho e a outra ele conseguiu ainda apanhar com a mão direita, e agora com a outra pérola suspensa na água ele recolheu o seu braço direito e com a palma da mão estendida deixou a segunda pérola repousar sobre sua pele… Na sua mão esquerda ele juntou ambas as pérolas. Elas eram do tamanho de moedas de 2€. Ele pensou em as repor no seu devido lugar, mas porque haveriam duas ostra de cuspir os dois seixos esféricos na sua direcção?… Quando começava a bater seus pés para emergir pensou ver a figurilha acenar num único movimento da sua cabeça em aceitação, mas assim que as algas a encobriram e dançavam em frente à estatueta ele permanecia sempre na mesma posição.

Assim que emergiu, ele acabou enrolhando a seu a rede de pesca (que não tinha recolhido nada) e sentou-se olhando as gemas numa rocha da enseada. Ficou olhando as duas pedras na sua mão sem saber bem o que fazer. Com o sol a pôr-se já na linha do horizonte, Baqui levantou-se, caminhou olhando sempre a sua palma até sua casa, pisando a areia e a madeira do porão até à perda de granito no degrau antes da porta de casa. Agarrando a maçaneta da porta, ele a abriu e entrou em casa caminhado directamente para a cozinha. Pegou lá no mais forte martelo que tinha e bateu nas duas pérolas, mas nada aconteceu. Mais uma tentativa e nenhuma das duas se quebrou. Ele pegou então num antigo frasco de geleia, colocou na torneira para a encher de água e depositou no frasco as duas gemas. Pensando que a àgua devia ser salgada, ele esticou-se para a prateleira do top do lavatório e, sem ver, agarrou o primeiro recipiente que encontrou, julgando ser sal deitou algum sobe a água do frasco e mexeu com uma colher. Após fechar o fraco com a tampa da geleia ele viu que tinha pegado no açucareiro em vez do saleiro, e de imediato tentou alcançar o frasco da geleia mas assim que tocou no vidro viu que as duas pérolas se começaram a desfazer e que a água se estava a transformar lentamente… e alguns minutos depois ele viu que o líquido se estava, lentamente, a transformar em geleia…

Manuel Vela
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