Bálsamos

De frente para a estátua do Afonso Henriques estava uma senhora. Ajoelhada, parecendo rezar, encontrava-se em tal posição há vários minutos, ou pelo menos era o que julgava o nobre Conde Viscondes. Ele julgava na sua muito primordial cabeça que, por certezas, a senhora teria algo a arrepender-se, e viera ali apaziguar a sua alma fazendo penitência a Nosso Rei Afonso I.

O conde Viscondes amainava os seus afazeres pela loja de ferragens. Viera consertar a sola dos seus sapatos, já gastos dos pesares caminhos e encruzilhadas que o homem tinha passado ou feito no último ciclo solar. Conversa puxa conversa, e o Conde ficara mais que de seu gosto no estabelecimento, o Sr. Anselmo Ferro era uma pessoa culta.

Conversaram sobre as novas políticas do nosso regime e do regimento em que nos punham agora nestes dias em que as vacas gordas se foram e secaram, tinham até dado uma achega ao futebol e dado o seu contributo menos ou mais certo sobre os reforços para a nova época.

Mas quando o Conde se preparava para dar de frosques, o Sr. Anselmo tagarelava sobre … fitando no canto do seu olho, Viscondes vira ainda a senhora de joelhos na calçada…

“Sr. Anselmo à quanto tempo estou eu por cá?”

“Meu conde parece que está cá desde as 9, e são já quase horas da minha paparoca! Mas porque me faz tal pergunta meu senhor?” Às vezes parecia que o Sr. Anselmo ainda falava no século passado…

“Porque a senhora ainda se encontra prestando penitência ao nosso estimado Rei Primeiro. Pergunto que terá ela feito de tão mau…”

“Por este andar foi ela que naufragou o nosso navio Portugal!” Sorriu dizendo o sapateiro.

“Ahah, deve pesar-lhe algo na alma para tanto tempo levar a levantar tal peso…”

“Cada um tem as suas maleitas da alma, meu querido Conde Viscondes!”

O Conde disse ao sapateiro “Só um momento senhor” , saiu da loja e caminha para a estátua onde se ajoelhava a Dama. Subindo ainda as escadas antes da senhora o Conde disse, “Muito bom dia minha senhora”. Sem nada dizer a senhora, permaneceu no seu lugar enquanto o conde deu mais cinco passos até chegar a ela, e calmamente colocou a sua mão direita sobre o ombro da mulher e disse, “Achas que sua penitência pode cedê-la por uns minutos para tomar o pequeno almoço comigo?”

Numa voz calma e pacifica a mulher proferiu: “A infusão só resultará quando eu avistar a perdição!”

O Conde ficou olhando a mulher, perdido e confuso com a penitência de senhora. Mas antes de ele dizer qualquer coisa ela respondeu, “Esta infusão será a tua alma com tua fusão e a cura  que procura tanto está em si como na penitência, ardura e sustento deverá procurar, para a maleita de sua alma curar!”

Erguendo apenas o seu joelho direito a senhora começou a levantar-se. “Muito obrigado meu amável Visconde”

Ambos se levantaram completamente com o conde a segurar o braço da senhora ajudando-a a erguer-se. Só agora o Conde pôde fitar a cara da Dama, e ficou um pouco espantado com tão deslumbrante e bela faceta. “Deve ter uma boa razão para tão séria penitencia minha senhora?”

“Senhorita por favor”

“Assim seja, Senhoria…?”

“Benção, senhorita Benção”

O conde ficou um pouco surpreso, “Um nome deveras estranho mas na mesma belo”

“O dR. Estranhoamor achou o mesmo que o senhor, mas na realidade quem é ele para falar, com tão estranho nome e estranha profissão…”

Quando deram por ele estavam ambos a entrar, e Benção entrava na padaria respondendo ao Conde, “Devia ter ouvido os crimes do dr. Estranhoamor e outra estórias contando pelo mesmo ali em minha frente fiquei um pouco espantada com tão anormais e vividas estórias por parte dele mas mais ainda a sua eloquência deixou me intrigada. Tanta coisas que ele me contou que começo a me perguntar se não me tentava dizer algo com tanta história.”

Os dois sentaram-se na mesa perto da janela e continuaram a conversa…

Eusébio Estranhoamor
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