A sós

Porque deva eu estar com alguém se a solidão me abraça hoje.
Hoje mais forte que antes, com garras de leoa como se saudades tivesse de mim.
Como se não estivéssemos juntos por um longo tempo…
Este, o nosso mais recente encontro que dura há já vários meses.
Não entendo as saudades e a falta que de mim sentiu, eu nunca a deixei, ou terá sido ela que nunca me deixou, não sei bem, acho que é algo mútuo.
A realidade, já sei dizem que ela não é real, mas a verdade é que agora vive comigo, partilha o mesmo colchão que eu, deita-se nos mesmos lençóis que eu, acorda-me de manhã cedo para ficarmos mais tempo no sono, nos sonhos, nos pesadelos, na imaginação partilhada. Não é que eu não queira a companhia, mas ela prende-se a mim agora, mais do que agarrada, está presa, quase que podia dizer que ela está dentro de mim. Ela não é possessiva, é carinhosa esta Maria Solidão. Vive comigo, sente a dor que eu sinto. Em simbiose vivemos, eu lhe dou alimento e carne, ela me provém com conversas e companhia. E eu que faria sem esta bela mulher Maria. Sozinho sem a solidão, que maldição isso seria, o que eu faria sem ter qualquer companhia. Ninguém algum dia me diria que ela existia, até há pouco tinham-me mentido e dito que ela não fazia sentido mas eu vejo a solidão, bela, elegante um divina criação.
Tal como eu, ela adora o escuro, acho até que ela tem uma casa qualquer na parte mais escura da minha vila… Algures no meio da floresta verde e viva. A casa se funde tanto com as árvores e plantas que ninguém avista tal habitáculo…

Eu e ela agora a sós, olhando-nos apenas um ao outro, sem qualquer interferência, Eu e a Maria.
Tristão e Solidão, com longas conversas no silêncio, com a paixão de nada mais haver que cada um, livres de qualquer sensação de abandono, enquanto lhe digo, “Eu, Tristão, acho que as pessoas não compreendem a Solidão, Doce Maria. Se te conhecessem como eu, decerto te amariam tanto como eu!” Ela é o meu ombro amigo, o suporte, o alicerce que sustenta a minha personalidade. É a fundação que me faz ser humano, a Solidão é a mãe da minha criação. Quem diria que, de tão só coisa, nasceria o Tristão. O Homem, o salvador, o curador de almas feridas… Talvez ela seja especial porque não requer qualquer medicamento ou cura, a solidão sempre saudável e viva. Esta solidão que também chora, esta mulher que também sofre mas que fica até as barreiras serem ultrapassadas.

Persistente e resistente Maria vive agora com Tristão!

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