Rascunhos

Nesta folha de papel velha e desgastada aparecem as letras…

“Quero começar isto com: Talvez isto seja a última e a primeira coisa que escreva mas quero que fique escrito nem que seja num rascunho. Vou deixar de falar, vou deixar de estar, vou deixar se se. Acho que tive uma confusão com meu corpo e não quero mais viver nele! Vou abandoná-lo, despedir-me deles e de todos na mesma instância, ser deste corpo que vem comigo desde a infância.
Há muito que poderia dizer, muito que poderia escrever, mas quero que as palavras que se seguem sejam muito certamente as últimas que lêem ou ouvem de mim. Estou a caminhar para a Rua da Insanidade e antes que meu corpo falhe e minha cabeça se perca quero escrever isto:
Vou pedir desculpa. Sim, pode parecer um pouco estranho de mim, mas vou pedir desculpa. Não, não estou a pedir desculpa por ter partido, não estou a pedir desculpa por ter sido severo ou talvez um pouco teimoso. Vou pedir desculpa por todas as vezes, ou por qualquer das vezes que vos puxei para qualquer uma das cargas que carrego nas minhas costas. Lamento sinceramente alguma vez ter pedido a qualquer um de vocês para me ajudar a carregar tal massa. Lamento os dias em que fiz pessoas suportarem alguns dos fardos que trazia … devia ter continuado a lançar tal feno e gravilha para a fogueira como antes fiz, não devia nunca ter manchado tua vida com tal entulho. Se hoje soubesse, quando te conheci teria-me afastado ou ter-te-ia dito que o Peso era apenas meu e assim deveria descansar sobre minhas curvadas costas até ao final dos meus dias. Desculpa Maria.
A todos os outros gostaria de afirmar, e recordar todos os dias que partilhei quem sou, não o deveria ter feito, foi egoísta de mim tentar pedir ajuda nas minha chagas.

Não pensem que, por tais palavras, não estou a apreciar a ajuda que me deram, mas lamento algum dia ter atribulado vossas vidas com minha carga. Ela nasceu comigo e comigo deve sempre permanecer, sobre minhas costas repousará agora até aos fins dos dias.

Poderia ficar aqui escrevendo como que a minha primeira tentativa de carta de despedida, a minha carta de partida. O meu rascunho de testamento, porque pouco mais que terra vos deixo, pó e poeira após a minha ida, mas vos digo que não me vou desta terra sem uma despedida e vou embora dizendo a todos…
Lamento Pessoas!”

Sem assinatura, sem identificação o pedaço de papel termina com um simples e recto ponto de exclamação
A exclamação de alguém que decide ficar desconhecido pois a quem ele escreve ele era sabido quem era
Nada mais ele pede para ser dito ou lembrado, apenas o que escreve…

(A Carta do Desconhecido)

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