Amargura

 
Sinto me morto por dentro, as vezes podre ou desfeito, em cinzas, em ruínas, um antigo palacete de uma era tão antiga que ninguém se lembra mais do que outrora tais pedras foram.
Uma memória esquecida, removida e apagada da qual nada mais resta que pedras, frias e duras, imóveis, estáticas, tal como minhas veias congeladas, fragmentadas pelas pancadas… um ou outra já em fina areia… areia, pó sou eu por dentro…
Não sou mais homem, talvez nunca tenha sido, mas alguém insiste em me manter neste mundo vivo. Não sei bem se preso ou contido.
Alma, acho que já não a consigo ver em mim, estarei eu cego? Ou ter-me-ei esquecido do seu aspecto? Um ser em espectro, radiação, maldição…
Deixei de ser humano, algures neste trajecto, já nem sinto o meu corpo, muito menos o que há dentro dele.
Sentir ele sente, criei uma película que reage a tudo à minha volta como se eu próprio existisse e, assim que essa membrana se tornou flexível, acho que deixei se ser, esqueci toda a tristeza que vivi, esqueci toda a alegria que vi…
Alma penada… arte acho que é esperada mas até isso já julgo não ser meu…
Não pode ser meu, nunca fiz nada de produtivo, dizem que sou criativo mas eu não acredito, sou céptico talvez, ou fui uma vez, e no rio Vez nada.
Afogo, com tal rica arte de sufoco…Caminho meio-morto já é para mim um desporto.
Da água não vejo bom porto…
A armadura, a metaleira me guarda, até alguns dias contem, mas por baixo dela já julgo não haver carne, somente as gotas de sangue me fazem crer que dentro do ferro há ainda carne. Infante, soldado… já nem sei o que sou, acho que nem guerra houve, mas no meu corpo ainda ecoa o cheiro dos corpos queimados, do óleo da maquinaria, da pólvora das balas… O som dos bombardeamentos, o “clank clank” do funcionar dos tanques, o tom negro do óleo, do queimado nas minhas mãos! O vermelho, o encarnado, o, o.. o… vermelho.
A piscina de sangue!! Meu sangue? ou o sangue de quem vi…?
A carne talvez seja fraca, mas minha armadura é rija, e minha carne, se dentro dela existe, vive e persiste.
Será carne, será espírito, será que ainda sou eu?
Não sei se preso, ou com peso, tanto metal em cima de mim meu caminhar de certo tosco ou custoso.
Vem minha armadura vamos sair daqui, terminar…
Pumb… ….Pumb… …. pumb
Os pesados pés descaem sobre a terra, a cada passo o som vai sendo mais fraco. Esta armadura leva-me para outro lugar, aqui vou eu a pedalar na direcção do nevoeiro que se abate sobre a floresta tropical…
 
 
 
…Ebo Bravo Soldado…
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