Tomé!

Tomé passava o seu tempo entre ferro, ferrugem e ferramentas.
Desde cedo que estes foram os seus brinquedos, as suas letra na linguagem que usava.
No bairro era conhecido Tomé Latoaria, mas bem, para além de ele produzir e reparar desde todo o tipo de artefactos e objectos, Tomé era conhecido por se exprimir pela cabeça.

Era tarde já no dia e Tomé fazia a sua regular e gentil visita ao ferro-velho perto do porto, ao longe olhando o mar no para-peito da rua que passa acima do caminho que Tomé tinha tomado dois miúdos avistaram o pequeno homem. Não mais do que metro e meio tinha o Latoaria era um anão o curvado Tomé mas não era isso que os miúdos agora comentavam.

“Aquele é o Senhor Tomé, minha mãe diz que ele fala com a cabeça…”
“Minha mãe diz que ele nem olha para as pessoas quando fala” disse o outro rapaz.
“Se calhar ele nem tem boca, ou então tiraram-lhe a língua, meu pai conta-me que fazem isso a quem se porta mal, Xico.”
“Achas mesmo Gui? Então ele deve ter feito algo muito mau para lhe tirarem a língua!” assustado comentou o Franscisco.

Tomé nem ligava aos rapazes, ele tinha os avistado antes mesmo de passar a arcada. Não era novidade para ele as pessoas comentarem as suas peculiaridades, desde o seu tamanho a sua maneira de “falar”, que não era propriamente falar. As vezes os comentários davam lhe vontade de rir e quando ele realmente se ria as pessoas nem se apercebiam, na maior parte das vezes as pessoas estavam fitadas na sua nuca ou todo da cabeça e não era em nenhum desse lugares que ele expressava o riso. Para ser honesto, a sua baixa estatura e o facto de Tomé caminha um pouco curvado e fitando o chão não eram as melhores características para desaprovar a premissa de que ele falava com a cabeça, tão pouco gente tinha fitado a face dele. Tomé sempre fora tímido e muito raramente olha as pessoas nos olhos quando comunicava. Olha mais vezes o chão que o ar, se calhar por ser o local mais próximo dele mas as vezes havia gente que podia jurar que ele fitava o solo a procurar de algo, como se procura-se algo perdido ou deitado ao abandono no chão. E era quase um dom que ele tinha de fazer de tralha algo magnifico.

Mas agora quem fitava algo obsessivamente eram os dois rapazes, ele fitavam Tomé. Tentavam perceber o que ele fazia. Tomé tirava o seu saco de Acrílico que sempre dobrava no seu bolso esquerdo e com cuidado e atenção escolhia por entre a lata, e tralha de ferro algumas peças, partidas e gastas pensavam o miúdos de lá de cima, mas Tomé escolhia tão meticulosamente as partes que quase parecia um chefe a escolher o melhor naco de carne no talho. Durante mais de meia hora o rapazes ficaram a ver o Senhor Tomé, como lhe chamavam, escolher a sua “carne” para preparar na fornalha, quando Tomé se preparava para dar a procurar por acabada já o saco tinha quase o seu tamanho e mais certamente pesava mais que o pequeno homem. Por entre a pequena bruma que se abatia sobre o cais Gui viu Tomé tirar algo do seu bolso, parecia uma pulseira, e Tomé colocou-a na saco prendendo a boca do mesmo e cerrando assim o assim, de seguida os dois miúdos ouviram um leve e suave “click” assim que Tomé tocou na a pulseira. Quando o ferreiro pegou no saco ele parecia pesar na mais que dois quilos, de tal forma que Tomé nem aparentava fazer qualquer esforço para o carregar mas mesmo assim caminhava com a sua tão familiar pequena curvatura.

Xico e Gui ficaram por um curto instante olhando-se intrigados com a simplicidade com que o senhor carregava tão cheia sacola de ferros.

Tomé regressava então pelo mesmo caminho que o tinha trazido ali, em poucos segundos ele passava por baixo dos dois observadores. Assim que entrava no pequeno túnel por baixo a rua onde estavam os rapazes a sua cabeça mexeu, e o Francisco disse: “Vês, ele falou com a cabeça para nós!” A sua cabeça tinha virado primeiro para direita e depois num movimento rápido para a esquerda regressando rapidamente a sua posição central e o Guilherme podia jurar “foi ele a dizer-nos boa noite podes apostar!”

No dia seguinte o Francisco tinha ido com seu pai a sucata do Senhor Tomé, seu pai batera a porta e Tomé abriu uma pequena brecha na porta e com um movimento descendente da sua cabeça deu permissão aos dos para entrar. Assim que a porta se destrancou o pai do rapaz empurrou a porta e avistou Tomé junto a sua mesa de trabalho, claro que era uma mesa bastante baixa, mas mesmo assim era uma mesa de trabalho. Avista-se quase só tralha por todos os cantos com algumas coisas que deixavam duvidas de eram utensílios ou coisas inventadas ou agora partidas e sem utilidade. Sem Grande demora o o pai do rapaz foi directo ao assunto! Senhor Tomé vi a sua carta dizendo que já reparou a minha chaleira do chá!

Tomé levantou-se da sua cadeira e junto do armário a sua direita pegou numa chaleira, Francisco mal a reconhecia, estava tão brilhante e já nem tinha moças parecia quase nova. Tomé aproximou-se do homem com quase dois metro e entregou-lhe a peça obrigando o homem a se vergar para a alcançar e de seguida levantou a sua mão com três dedo no ar e o homem pousou em sua pequena mãe três moedas e assim disse “Até à próxima Senhor Tomé” e os dois caminharam para saída. Mas antes de Francisco voltar as costas ao pequeno Tomé ele podia ver na testa do mesmo a pele enrugada e quase que podia dizer que o senhor falava para ele dizendo até “Volte sempre, prazer em vê-lo”!!

Ah como Tomé é tão Taciturno…

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