Enferradura

 
Meu corpo parece ganhar ferrugem, músculos ásperos, presos, constrangidos como se meu corpo estivesse perdendo a fluidez. A sua lubrificação escassa, suas dobras e articulações cheias de areia, ferrugenta.. o sangue seco, coagulado deixando este espantalho de carne em pedra. Empedrado como que parado e congelado no tempo, no espaço, apenas sua mente esperneia debatendo-se contra a viscosa insanidade que agora partilha este apartamento onde vivia apenas um… sem espaço para ambos o senhorio cérebro recusa-se a deixar-me partilhar a casa com a dama Insana. Ela não pode voltar para a rua e insiste que tem que aqui morar nos dias de hoje, claro que eu lhe fiz a cama mas ela não se deita nela. Acho que esta senhora nem dorme ou descansa!
Gélido nesta armadura ela me fala, me diz que sou um ser perverso e retorcido, uma mente que não tem corpo seu, um corpo alienado, desfigurado que a ela lhe pertence e temo que ela tenha razão, ela já tomou conta das rédeas deste casulo por várias vezes…
Sempre que eu o comando ele permanece enferrujado, preso e barulhento… não o controlo, ele não me responde, ou meramente reage com lentidão. Essa ferrugem que digo ter será minha ou da armadura? Tal resposta eu acho já ter… mas, mas não pode ser, não é possível que esta ferrugem seja da mente…
Como sempre, se eu aceitar o abraço da dama Insana toda mecânica desta cápsula dura é para mim conhecida, nunca vi tal armadura funcionar tão bem como quando aceito o seu caloroso abraço, tão forte e persistente abraço…
Dama insana, será você que limpa tais fissuras e dobradiças de minha armadura? Ou será a senhora que faz a muda e oleia este metal sob minha carne, esta minha carne em metal, esta fundição de carne e metal. Mas de cada vez que eu e a senhora nos juntamos em tão vivido contacto toda esta tralha de arma, dura e resistente passa a ser tão mole e maleável como meus simples músculos, tanta vezes ainda mais flexíveis que carne, às vezes plasticina, inquebrável  mas amassada, afastada e abatida, preenchida de moças que rapidamente desaparecem como que quando uma bala perfura a água…
Mas esta ‘dura, quando dela quero sair me prende e ferra a carne no lugar, imóvel, a Enferradura toma lugar da armadura e me traz dor a cada membro um de cada vez ou vários ao mesmo tempo… Assim torna-se aradura, árduo o  qualquer movimento, qualquer deslocação a mais simples movimentação se faz agora com a mais dolorosa e perfurante picada, chicotadas por vezes, pancada outrora, choques ou cortes, o simples deitar é espetar pregos no meu dorso. Deitar-me em cama dos mais afiados pregos… esta armadura sempre presa a minha carne ela e o metal são parte do mesmo animal, infame Infante Ebo…
Nunca mais soldado quando sua armadura lhe confere toda a dor que a ela foi causada por esta guerra. Ela que leva com balas nunca geme ou grita mas agora me faz a mim querer uma serra, amputar este membro fantasma que me traz chagas e espinho…
Mas sem ela não estaria eu aqui, esta abominável soldado, herói ferido em combate mas que nada mais sabe que o combate. Em sua pele de sete em sete se lhe espeta a ferrugem por entre a armadura para sua tenra carne… A pena de Enferradura cravada pelo corpo, nada mais que desporto agora passados milénios de dor e ardor, tanto pesar, decerto vem de carregar esta Armadura, Armagura com tanta enferradura… 
 
 
…Ebo Bravo Soldado…
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