Formosa

Beleza, tão pura beleza, ultimamente tenho-a avistado em grandes quantidades.

Ela tem banhado meus olhos com tão delicada água, em perfeita temperatura, vem temperar os meus dias, não pensem que eu agora tenho os óculos da felicidade em minha cara e que tudo me parece bem mais belo do que realmente é. Muito pelo contrário, minha mente tem viajado um pouco para a escuridão, meus dias têm sido bem turbulentos e desencorajadores e ver belo de tão composta e densa noite escura tem-me deixado um pouco perplexo, admirado ou até mesmo confuso.

Esta catarata, esta névoa que tem caído sobre a minha íris não deviam deixar-me ver tão bonitas feições. Até meu cristalino tem sido afectado por um pequeno endurecimento, e tal avistamento de beleza não devia ser possível, será algum truque de ilusão que faz meu cérebro ver o que não existe?

Não sou pessimista, mas não me podem dizer que nestes dias há por ai em qualquer árvore beleza para colher e oferecer, ela tem sido bem escassa, ausente quer beleza física, quer beleza interior. Essa beleza de mera aparência, essa beleza de maquilhagem ou bem vestir isso para mim não é mais que beleza de usar e deitar fora, beleza de descartar, fugaz, inútil e inexistente. Não, claro que não me refiro a tal, incorrectamente, chamada beleza, se desejam ser enganados ou se deixarem enganar eu não vou desmanchar prazeres e partir o vidro da ilusão. Mas essa, decerto, não é a beleza que eu aqui reconto…

Falo de uma beleza bem mais profunda, bem mais inata, bem mais divinal que existe no fundo de uma mulher terna, de um homem protector, de uma criança pura e brincalhona, de uma menina a descobrir a escrita, um rapaz a descobrir o desenho, dois adolescentes a viajarem na sua imaginação… tudo isto, toda esta elegância, eu tenho visto estes tardios dias, estes desgastantes dias, este cansativo passar de penosas torturas iluminadas a uma incerta hora do dia por tão fluorescente, incandescente, incessante Elegância, essa pura beleza…

De onde vem toda ela? Talvez tenha perdido o fio à meada e desta vez perdido a minha mente para a loucura… febril e alucinatória loucura…
Ah como eu a adoro alguns dias, menina loucura, brincalhona, sorridente, impertinente, irritante, insana loucura. Esta dura criança que vive em mim à uns poucos anos, minha filha de certo, minha parte, minha afilhada, meu adorado anjo… Loucura!

Tuas asas tão suaves me abraçam estes dias, nada mais pode me ter causado tão deslumbrante visão que não tu!
Filha Loucura, nasceste de mim outro dia e já me fazes sentir tão orgulhoso de ti! Trazes-me tão bela visão, a névoa sei que em minha vista se entranha mas eu não me importo, e sei que toda, ou muita desta visão de beleza que avisto estas horas é falsa, irreal, mas de dentro de tão louca beleza alguma deve realmente existir e neste emaranhado de visões, alucinações e predições ainda consigo avistar beleza! Belas mulheres, puras crianças, cavalheirescos homens, mesmo que tenha com a sanidade pagar para voltar a ver tal elegância, deixem-me levar a factura com 100 gramas dela!

Não expliquem cor a um cego, deixem ele sentir todas as texturas do mundo e ele mais beleza verá que cores algumas vez algum de vós avistou!
Tons, tonalidades, meras trivialidades, simplistas, retocadas cores, mas texturas? essas são bem mais ricas, e hoje senti tanta textura com a minha retina que quero cegar e sentir apenas isto… me perder pelo mundo da sinestesia! Toda essa junção e união de sentidos, novos e velhos, descobertas…

Mas voltando à beleza que vejo, sei que não a consigo alcançar e nem a ele me chego, qual perseguição , meu corpo está electrificado com apenas a visão. E que a não vou alcançar, estou crente de nunca conseguir, decerto se lhe tocar vou feri-la, transformá-la, simplesmente desmoroná-la com meu toque, arruiná-la, restantes apenas as pálidas, obsolentas ruínas de tão  formosa bela! Pó e nada mais que isso, de alguma vez a abraçar, e se querem que vos diga prefiro apenas admirá-la, de longe, às vezes de bem longe para tão turbulenta massa escura, em mim não consuma esta esbelta beleza. Bem longe dela me forço a estar, não quero ser o causador de tal desgraça, de na sede, no anseio de lhe chegar, de a desgraçar em pó, eu ainda tenho dó, e limito-me meramente a observar do mar! A reparar quando outrem a rachar ou quebrar, porque isso eu sei fazer, de tanto a ver meu crânio raspou no osso e massa cinzenta a película clara e detalhada de tão complexa beleza!

Tão riscado meu crânio agora está, com gravuras cravadas em todo o osso, todos os recantos dele imagens de Elegância. Dores por vezes ascendem de tal gravura, ele se liberta por meu septo nasal, ao acordar sempre que vejo a beleza, assim quando ferida eu a posso curar, quando partida eu a posso reparar, menina beleza! Agora sem cogumelos deixo de acreditar nela, lamento menina, mas por vezes escasseias na minha mente e tais gravuras são meras plantas de reparação, para o mecânico, nada podem fazer para nova beleza fazer… em alturas, inspiração na sua melhor utilidade.

Avistar tal beleza traz à minha cabeça serenidade, calma e felicidade, sem qualquer real razão para tal emoção preencher meu corpo-coração, batendo em alento, batimento de sobrevivência, percurssão de vivência, não é esta beleza que me faz viver é ela que me faz escrever e nada me importar com morrer ou desaparecer! Beleza minha ilusão!!! Elegância minha alucinação… formosura alimento da minha armadura… óleo, lubrificante de metal…

Formosa, esta resistente armorosa, vestimenta armadura!!

Adamastor Salazar Escudete

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