Porto

… continuo a ter provas de que devo estar sozinho, a ter provas que a solidão é o local onde devo estar, a morada da minha alma, a cama de minha mente. A parede da minha aparência onde não há qualquer espelho, a solidão, nada de contacto com alguém, porquê interagir, já julguei algumas vezes o produto de socializar, amar, interagir, criar, mas agora vejo que isso não importa, essa tua importância solidão não é isso, a tua importância, é simplesmente me remover, me apagar, me esquecer, me consumires por inteiro como que num abraço e sedução carnal, recheada com picante e amor, carinho e com, compaixão.
Essa solidão é nada, uma maldição nunca foi e talvez nunca o será é na sua trivialidade a forma de trazer felicidade aos locais que deixo, deixar a felicidade nas pessoas que abandono, mas parto, parto me de cada vez que me acompanho, e na minha mente pairas tu, e a pergunta se será suficiente a felicidade de quem vejo pelo retrovisor para que eu seja uma pessoa? Mas a solidão nunca responde, nunca pergunta, conversa mas nunca me fala, partilha mas nada mais que silêncio e equilíbrio, me oferece oblívio, e criatividade, pensamentos e pesos, me confere com cada estadia força e músculos, para carregar essas mesmas pedras de pesos, não de gravidade, nada de fatalidade… sol, sol e lua, dão a minha nada mais que solidão, e a lua, que nunca foi tua, é sempre minha a cada noite, brilhante mas nunca radiante, sempre tímida mas branca e mesmo ela de mês a mês escolhe uma semana para si mesma e para o sol, para a solidão enquanto de costas para ela eu fico.
Esforço de interacção não é o que me faz querer abandoná-lo, medo de sofrer não o que me faz amar a solidão, o estranho que sou não é o que me faz criar na solidão, a mágoa ou dor não me são a fonte do amor pela solidão. Nenhuma destas a mim ditas razões foram alguma vez as minha razões, começa agora a ter forma que a explicação para tanta compaixão com a solidão é a mesma razão que ninguém gosta de com ela estar… com ela durar, com ela ficar, tempos, horas, dias, meses, ou mesmo anos. A razão não a direi mas ela, a sabe, a vós pode talvez um dia informar o que me leva, o que me conduz a sós.
Nada de recusar o toque de outra pessoa, nada de negar presenças ou socialização de tempos a tempos, afinal de contas mesmo as plantas precisam de um pouco de escuro para metabolizarem, mesmo, mesmo, sem ser companhia não é inteiramente solidão e por vezes é-o na mesma mesmo com rodeios de pessoas, mesmo em multidão, há por vezes um sentir de solidão.
Às vezes espero que eu, mesmo que esquecido viva nas pessoas que encontrei como a solidão vive em mim, mesmo esquecido… viva em locais recônditos de quem fiz feliz por partir, e de quem fiz insensível por ficar.
A importância de tudo isto é na realidade não ser importante, sem relevo, sem relevância, sem rugas, ou velhice, macio e liso, suave e sedoso. Nada de irritação, nada de impressão, nada de incómodo, nada de perturbação. Nada mesmo eu, dá na mesma nada, mas sem mim nada mais há de mim, nesse todo nada que se fala. Nada que quando a ela se tira nada de nota perder, nada que muda mas que nada se vê mudar, e afinal de contas eu sempre fui fã de nadar e agora nado, nada, em águas de mim, em vísceras minhas, em suor, nade de poder. Nada a esquecer porque nunca antes foi preciso recordar, nada mais a lembrar que agora as coisas mudaram, não as minhas, mas deveras as coisas mudaram.
Prova, degusta, o sabor de saber que eu nada mudei mas que quando parti as coisas mudaram, esse sabor agridoce, amargo e adocicado, pelo menos assim para mim é e para sempre assim será.
Esse sabor, essa língua, que experimenta que saboreia, e esse corpo que recebe, a ausência de nada.
E do Porto, não esse Porto, um simples porto, de onde eu navego, um porto que é dentro de mim, um mar que é meu, com marés que são de mim, um porto de onde parto, de onde saio, não partido mas reparado, não de madeira mas de plasticina, de plasticina. Sem velas mas com pano, com tecido, com fibra… levando comigo o tear que com linhas, materiais constrói plasticina mental, plasticina com mente… porto, potro, porto, vinho, porto… porta, porteiro, porto, pórtico. o Porto.

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