#Amornegro

velho e escuro poema de Manuel Arnês Vela

No meu escuro quarto um dia
Encontrei um monstro sem amigos
Tão pequeno, debaixo da minha cama cabia
Rouco me disse: “Quero figos”.
Um manto velho e preto, ele vestia
Tinha um toque em si de magia
Na cabeceira eu tinha uma figueira
Da qual tirei um figo, sem fazer asneira
Lho entreguei na pequena mão
Sem medo ele o comia encolhido
Contando a história de uma bela fada
Que tinha morrido num terrível tufão
Ela tinha sido levada pela corrente
Até ao vermelho sol poente.
Desapareceu sem retorno
Deixando para trás o seu adorno
Que o seu cabelo preto prendia
O figo já tinha desaparecido para a barriga
Quando o Negro de nome ele me dizia
Fora incumbido de a Bela resgatar
Mas a sua fadiga era de castigar.
Agora pára enquanto ele mastiga
A sua causa era nada ter na barriga
Calado ficou mastigando o último pedaço
Remexendo nos lençóis com o antebraço
Olhando me com os olhos vermelhos
Onde eu podia ver-me como num espelho
Corria uma lágrima do olho
Que suas mãos colhiam para demolho
No escuro descansava o infeliz
Com a cor do candeeiro a que me afiz
Vermelha e difusa no rosto
Vendo-se agora o seu desgosto
Que de tão pesada carga
Já tinha a sua coluna curvada
Sr. Negro o que tem?
Sou vítima do cruel desdém
E agora caminho sem um único vintém
Na procura de Bela criatura
Que me deixou na amargura
Mas eu Amor sou
Mas eu Negro sou
Que entre nós solidão tem de haver
Para a paixão nascer e poder morrer
Porque não morre o meu ardor?
Não se extingue o meu clamor?
Ela não se apaga senhor
Renasce de cada acha o amor
Pois o fogo para renascer
Apenas precisa de uma faúlha ter.
Hoje posso dizer que dei forças
Ao Negro Amor que no meu quarto
Se lambuzou até ficar farto
E partiu para a sua bela descobrir
Sabendo que podia voltar-se a ferir
Mas o amor é sangrar
Sem a hemorragia estancar
E (o sangue) continuar a correr

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