Folhas Esquecidas

Dado Buhdda

“Não me encontro aqui, esta já não é a carnal paragem de meu ser.
São meras e simples folhas dos recontos que outrora eram este Homem. Já só podes conhecer as lembranças e marcas deixadas no corpo pela minha presença … hematomas e cortes. Tantos e quantos de vocês só conheceram as pegadas que deixei. Mas vivem como se essas ténues e suaves marcas fossem Eu. Não estou cá – Parti para não ficar e cheguei para nunca estar. Viajei para as várias dimensões, as do tacto, as da minha visão… As de artefactos esquecidos nas cantos escuros da minha mente!”

Alguém recitava isto à porta de uma papelaria. Parecia ser algo de um livro, algo antes escrito e agora cravado na tradição desta aldeia. Mas folhas na menina que recitava tais palavras não havia, tinha ela memorizado tal passagem para declamar. Pronunciando-se em algum profundo sentido que me eludia… Quase, como sempre nesta aldeia, o sentido me iludia, quase todas as pessoas neste lugar pareciam ter algo a dizer mas o seu contexto e localização dimensional me escapava. Alguns textos, algumas frases eram com certezas velhas, antigas até esquecidas já, em linguagem esquecida. Outros pareciam inventar palavras que eu nunca antes ouvi. Frases que nunca antes tinham sido montadas na minha presença…
Nesta aldeia as dimensões eram dobradas, perdidas amassadas, espezinhadas como se nada mais que massa, papel fossem, e pela papelaria nada mais existia nela que cartão duro e rijo, mas agora sobre o meu pé havia uma folha, contendo o texto recitado, enrugada e suja essa folha parecia mais velha que a rua de 1905 onde eu vi a papelaria.
Tudo era papel e letra nesta papelaria onde eu vi, e lia, seu nome ingenia…

Egas
Advertisements

About this entry