Fólios Armadurado


Soldado da (In)Fortuna: 
Crónicas “Ebo Bravo Soldado”
Ebo Bravo Soldado
Quinhão I – De um livro de guerras:

Ebo Bravo Soldado

“O metal da arma que levo nos meus braços, parece ficar mais frio, mais duro e difícil de carregar. Parece que é um atrofio do meu ser, é  mais um membro de meu corpo destinado a terminar a vida.  Meu uniforme uma vestimenta de simples simbolismo de integração, mas por entre chuvas de chumbo e morteiros sou um assassino nato, um objecto a mover-se em diferente sentido de todo o aglomerado. Um rasgo por entre a selva cortando a selvagem vegetação. Com catana afiada por entre árvores e osso de já depostos reis e soldados desaparecidos. Agora entre quatro paredes, espero. Deixei o conflito, mas estas paredes, a cada dia, aproximam-se mais e mais de mim. Um metro por hora encolhem para me encarcerar entre pedras, de certo o único lugar onde já deveria estar. Meu cérebro é  rápido e interliga-se de modo diferente, e permitiu-me, até este dia, resistir às chagas de outros almirantes e generais, que caíram diante mim ou pelas minhas delgadas mãos.
Neste quarto, agora, estou com uma fractura mental, nada me é possível fazer. Minha cabeça nada consegue produzir.  Aguardo freneticamente, por entre o ar tão rarefeito da divisão, que me surja nova razão para ser útil,  nem que para matar novamente. Depressivamente me deito no chão de azulejo azul claro do meu quarto, mas meu corpo e massa não aguenta quieto por muitos instantes. Tento descarregar a raiva que se vai acumulando pelo tédio de morte que se apodera de minha mente e de meu corpo. Na selva nunca isto me aconteceu…”

O traço da linha era suave e claro, demonstrava certeza no que se escrevia, mas a maneira como as letras se dispunham num certo caos… não se diria desorganização, seria algo mais no arrumado em anormal forma. O desgaste no manual era evidente, o livro tinha as páginas já em cor amarela, dobradas e enrugadas, um pouco desfeitas mas ainda com alguma integridade. Não era um livro muito espesso, continha por volta de 100 páginas de pequenas dimensões. A sua capa era em cabedal onde tinha gravado a metal fundido na mesma as letras “Ebo Bravo Soldado“.

“É como se minha alma, minha substância interior, quisesse rebentar para fora de toda esta carne cortada e sarada, recuperada de balas e espadas, preenchida por cicatrizes, como se meu coração de soldado me  impedisse de continuar a viver neste podre corpo infectado pelo crime e assassínio. Sou prisioneiro nesta prisão de ossos e massa vermelha. Carne e tendões envolvem-na, abafam e constringem meu ser interior, minha mente e memórias. Esqueço-me novamente quem sou, deixo se ser alguém. Sempre isto acontece antecedendo a espada perfurar outro corpo que não meu por minha pecaminosa mão. Ebo tenta rasgar a pele dura que ganhou já fungos de tanta porcaria em que tocou e causou, mas Ebo quer sair, esse Ebo que já se perdeu novamente no combate e de tão isolado e afastado da realidade que se encontra nesta sua demanda por morte.
Neste momento não sou Ebo, sou o Soldado 13 que seu papel nesta guerra é limpar os que são um obstáculo para as intenções e desejos furiosos do comandante Aparício. Sou o soldado utensílio, o correio da morte que bate à porta de sua vítima. Sem demandar uma razão ou um porquê, o soldado lê o papel com nome, pega na sua arma e caminha para a porta da fama com letreiros da fama do nome que o leva para esta demanda. Uma demanda que já é parte do Soldado, mas de Edo parece permanecer afastada.”

Este velho livro foi  no dia 1 de Dezembro do ano de 2011 encontrado por uma jovem rapariga de 7 anos apenas, a menina tinha há pouco aprendido a ler. Encontrando o livro por entre as empoeiradas caixas no sótão da casa de seu idoso avô. O toque na capa de pele do encadernado livro deu arrepios à menina mas, em parte, também a cativou.  Estranhamente a rapariga guardou-o na cinta de sua azul saía, até seus pés, temendo que alguém a visse pegar nele e a impedisse de o folhear.
Ela tinha se retirado da confusão que hoje havia na sua casa… “Tanta gente do exército com suas verdes vestimentas andam pela minha sala-de-estar. Nem posso tocar o piano com tanta confusão, os altos homens nem querem saber do belo som de piano”. A rapariga continuava a vasculhar as caixas perdida nos seus pensamentos, em busca de algo novo ou velho para se entreter. De joelhos no chão, agora caminhava com se fosse uma peregrina.
“Olívia” Um grito surgiu por entre o baixio tecto do sótão. A menina lentamente se levantou e, num delicado movimento, sacudiu a poeira que assentara sob os joelhos na azul saia. Antes de caminhar, ela olhou novamente para a saia e toda a sua vestimenta na procura de manchas, ela sabia que sua mãe uma reclamação ia fazer caso ela, em tão deslumbrante gala, aparecesse imunda de pó… Vendo que nada mais a sujava a menina em passos rápidos caminhou para a escada e desceu-a para regressar para a festividade.

Eco Soldado:
Quinhão II – Migalha de Pão

Ebo Bravo Soldado

Agora com os pequenos pés assente no chão de carvalho, Olívia estava no mesmo espaço e ambiente que os militares, tão festivos de comemoração, o Dia 1 de Dezembro. Tão república de liberdade e igualdade. Seu olhar de castanho noz, procurava por entre a multidão seu pai. Vestido com um casaco de corte refinado mas com uma simplicidade e humildade, suas calças de militar averdejadas  e um pouco mais apertadas pelos calcanhares, eram acompanhadas por uns baixos e confortáveis sapatos de ponta redonda, toda esta imagem deste Corpo deixava o observador aos pés da classe e honra que o sargento apresentava.
Olívia, busca por entre a multidão este homem, seu pai. A noz da pupila vasculhava  por entre a multitude de parede e pedra nesta casa. Tinha antes visto as letra do livro em couro corado, os contos de curtos recontos do soldado Ebo. Mas agora a menina Olívia era pedida no salão de ballet onde apenas as plantas e cortinados dançavam ao som do vento de inverno.

“Sons, simplesmente, sons do metal da montagem da arma. Metal a encaixar-se, numa sinfonia de calma e sintonia, os clicks e clacks que acontecem sempre que a arma se tem que limpar, explosões, fortes abalos e sons… Tudo na minha cabeça… a voz do comandante a ecoar atrás da linha da frente. [ -Mantenham-se escondidos!]. O Cabo Lourenço mesmo à minha a esquerda, não a mais de 2 metros de mim, escondido por entre duas pedra de mármore já um pouco enterradas por entre o solo. Eram quase da altura do Cabo os blocos da pedra, e por entre elas a voz rouca do soldado ecoa na minha cabeça: [“Flanco direito a sucumbir”]. É como se, agora, de olhos fechados a tentar adormecer, isto após 36 horas sem deitar, este saco de meu corpo nos lençóis de lã que por entre o escuro das pálpebras se forma uma quase real imagem. Existe por entre a minha mente, na dimensão do escuro de meus olhos uma outra realidade. O eco da minha memória monta-se como realidade dos “olhos encerrados” neste sonho de pedra que tenho no alpendre.”

“Olívia, estas a ouvir-me?”

Era seu pai perante a rapariga. “Então Olívia o que procuras por entre os militares?”
“Nada, meu pai!” Pelo pensar da menina haviam as letras e histórias que lera no sótão. Sua reacção era ainda lenta. “Procurava-te para te saudar com um beijinho”. O homem, Blasco Alecrim, baixou-se para que sua face encontrasse os macios e elegantes lábios de Olívia. Quase foi preciso colocar o joelho direito no chão devido à diferença de tamanhos entre os dois. Assim que a cara com a barba de 3 dias se tornou possível alcançar, a menina de azul inclinou-se um pouco para a frente e beijou a face de Blasco, levantando-se em pontas de pés. Com tanta delicadeza o fez, que seu pai a pegou nela sobre seus braços e colocou-a a seus ombros.
Os dois caminhavam agora por entre o verde militar. Olívia pensava lá do alto: Deverá ser assim que um gigante se sente, ver toda a gente assim de tão alta distância. Tão bom que é, e a bravura que é preciso para aqui estar. “Pai, que  se faz no serviço militar?” Sem qualquer aviso, como o primeiro tiro de cada confronto, a menina disparou a pergunta que Blasco não queria responder. “Tocas uma bela música no piano e eu depois to direi! Pode ser, Lívia?” A menina com um movimento descendente afirmou que sim e disse: “Pode, e tocarei Beethoven.” Num único movimento, Blasco desceu a pequenina senhora de seus ombros para o chão e, assim que seus braços a largaram, Olívia colocou seu braços atrás das costas, mesmo no fundo destas e caminhou por entre o homens e as poucas senhoras fardadas na sala, com uma classe que dava alegria de ver. Assim que chegou ao piano ajeitou a sua saia para não a estragar e sentou-se no banco vermelho que não tinha apoio para as costas. A menina endireitou as costas como uma verdadeira dama e colocou as mãos sobre as teclas do piano e inspirou. Começou tocando, de início ninguém na sala, sem ser seu pai, se apercebeu do belo som. A menina em azul continuava a tocar o castanho piano e, por entre as notas, pensava em mais escrita do Ebo Bravo Soldado.

Sem pão, sem nada para meter à boca, estou no meio da selva. Infiltrado por entre o verde, camuflado para não ser avisto. Há 3 dias que resto aqui à espera do alvo. Da vítima que, mais uma vez, terá de sucumbir, são as minhas ordens. Sem qualquer migalha de pão, tenho apenas o cantil de águas para me saciar a sede, mas até este já está quase no final, não me resta mais do que um dia de ração de água. Caso o General Albul não se entreponha entre a minha arma e o seu quartel, terei sucumbido a todo este estado agreste da selva tropical. Mesmo sendo ele um extremista que prefere “limpar o lixo” com as próprias mãos. Algo dentro de mim, no meu estômago me diz que está qualquer coisa errada. Talvez seja já a fome a afectar a minha mente, o que não dava por um pão…

Olívia tinha já terminado a sua peça de som. Levantou-se do seu banco vermelho e caminhou para a mesa onde estava a comida. Sem proferir uma única palavra pegou em dois pães fofos e bem quentinhos, saídos à pouco do forno e caminhou para o jardim da casa. Sentou-se nas duas escadas logo de seguida à varanda e começou comendo o pão tirando pequenos pedaços de pão com a sua pequena mão. Nisto ela não deixou de reparar que estava deixando migalhas de pão cair no chão. Quando voltou a levantar a cabeça já dois castanhos pardais estavam pousados na varanda olhando pão que ela tinha no seu colo e as migalhas que ia deixando cair no chão. Seu pai aproximara-se da porta e sem a abrir ficou olhando a sua filha na varanda…


Armadura Soldado
Quinhão III – Farinha de Trigo

Ebo Bravo Soldado

Olívia alimentava o pardal e, na sua mente,andava a dúvida, calma mas intrigante dúvida. “… que Armadura deve usar o Ebo?” Sem se aperceber e já sem seu pai a observar da casa, ela falou sozinha dizendo: “O soldado Ebo é mesmo forte! A cabeça dele é confusa mas ele consegue sempre sobreviver e cumprir o que tem a fazer!. Bem eu também tenho afazeres, sendo hoje feriado… Vou deixá-los de lado hoje.”
O soldado parecia agora para a menina quase como um cavaleiro andante, um homem forte numa estranha armadura que parecia evitar a morte do mesmo. Isto deixava a rapariguinha pensativa, muito mais do que qualquer problema de matemática, problemas que eram de fácil resolução para ela. Nenhum exercício de estudo era grande esgotamento de tempo para Olívia. A sua inteligência era elevada, não é que ela fosse a melhor aluna da sua escola, mas a sua inteligência era deveras grandiosa. A senhorinha parecia não se aperceber na totalidade disto, e por vezes a menina duvidava de si mesma.
Mas agora, sentada no degrau, a menina pensava como poderia o Ebo Bravo subsistir no mundo de batalhas físicas e mentais. um pouco de medo se abatia sobre ela quando se apercebia que a cabeça do soldado era preenchida por demónios, por chagas e pesos que atrasavam o homem, mas contudo ele parecia resistir. Era a sua armadura de certo que o protegia. De que seria esta armadura feita, como era  o Sr. Ebo capaz de persistir perante a morte e o sangue em suas mãos, na completa solidão e abandono de todos os que lhe eram valorosos.

Como vou eu regressar para a presença dos corpos que me acompanharam e tocaram antes de eu ter partido para este inferno de carne a arder pelas chamas de destruição, não posso permitir que este buraco negro me sugue novamente. Por pouco estive para deixá-lo sugar a mais importante pessoa na minha vida. Tive de manter o silêncio para não a conduzir a este fundo, isso custou-me muito… Custou-me o seu afecto… Mas nesta guerra agora pretendo manter-me a lutar. Este é o tempo de confronto e luta. Brevemente, espero, chegará o tempo de sarar os cortes que foram já feitos sobre mim e todos os próximos. É tempo agora de amassar a farinha de trigo para não passar fome, é hora de combater, tempo para confrontar este buraco negro e resistir, para alcançar o momento em que será hora para sarar as feridas e curar o mal que este buraco já fez. Silêncio foi a protecção que usei para os outros, o mesmo silêncio que me custou a separação para esta viagem de recuperação, o silêncio que me custou o Ser e a sereia…

Abrindo novamente o livro que escondia na sua saia, a menina voltou a ler mais uma passagem de onde submergiram estas palavras. Assim que as palavras sérias apareceram perante os seus olhos, Olívia decidiu fechar o livro. Ela começara a sentir-se mal lendo estas palavras. Fechou as páginas do livro e decidiu escondê-lo por entre a casca velha do tronco de um grande carvalho que havia no jardim, mesmo em sua frente levantou-se e correu 5 metros até à árvore e de imediato tentou esconder o livro para que ninguém o encontrasse. No final voltou para a sua escada, onde se sentou por mais alguns segundos olhando o carvalho. Desta maneira ficou por alguns segundos, mas resistia a dúvida de qual seria a armadura do militar que lhe permitiu resistir por tanto tempo. Certo que o soldado tinha ficado com marcas e cicatrizes na sua pele, cortes que provavam a sua capacidade de resistir e não sucumbir ao negro e absorvente buraco. Mas ele pretende sair novamente disto. Pensava Olívia… O medo era bastante e a menina decidiu afastar-se do livro…


Árvore Soldado
Quinhão IV – Sementes

Ebo Bravo Soldado

Algum tempo passou e, hoje, algures num dia de escola, Olívia estava sentada na sua cadeira e secretária tentando ouvir a aula…

Esta cidade está morta, a apodrecer. Consigo vê-lo com os meus olhos, o cheiro de velhas flores no fim da Primavera ainda resiste no ar… e o cheiro a queimado domina, por entre o frio, o fumo branco ascende para me fazer sentir que o queimar e pilhar desta cidade está no seu começo. Mas dá para ver já a destruição. Casas abandonadas e paredes estaladas e rachadas. Janelas partidas e portas rebentadas. Esta cidade foi já fruto de uma batalha desta guerra.  Por entre ela tenho eu que remexer, remexer no inicio do empalicimento da pele, o pallor mortis deste lugar… O seu começo de morte ou doença.

Ecoava agora este reconto do livro, das páginas desgastadas do Ebo Bravo Soldado na mente de Olívia. Ela conseguia ainda ouvir a voz da sua professora de matemática a explicar equações e incógnitas. Tais incógnitas representadas em giz num quadro negro, não de pintura a negro mas negra era a sua bela natureza. Tal como as palavras de Ebo, o giz, que escrevia nas páginas pouco obscuras tal como a Ardósia preta. Mas a menina tentou não pensar no livro mantendo-se atenta a aula. Mesmo ouvindo a aula ainda estava na cabeça dela o livro… Ela o tinha colocado algures para não voltar a pegar nele.

A aula terminara, era a penúltima aula e ela pegou em seus livros. Colocou-os junto com o seu porta-lápis na sua mochila e caminhou para a porta de madeira da aula agora aberta. A porta tinha uma janela a altura da cabeça de Olívia  com 30 por 50 cm. Mesmo ao lado da porta estava um rapaz, já no corredor encostado à parede. Ele tinha em sua mão uma revista, era banda desenhada. O rapaz era conhecido pela escola por Murilo. Ele lia com a sua cabeça curvada para o chão olhando as folhas, era uma história de soldados de chumbo que combatiam o exercito de máquinas de plástico. O pensamento de Ebo voltou a estar na cabeça de Olívia mas rapidamente ela se esqueceu disso e viu Murilo levantar a cabeça e lhe dizer “Olá” com um sorriso na cara. A menina caminhava para a próxima aula, ouvindo na sua cabeça o poema que tinha lido algures no livro…
… Escrito se lia:

Todos os dias me pergunto:
Mora neste corpo um defunto?
Perdida já a alma estradas macabras
Todos os dias me pergunto:
Porque me ponho eu à frente dos canhões
Para que os outros possam continuar intocáveis?
Nunca feridos com as balas,
Limpos de nódoas e sangue!
Sempre no mesmo vai-vem
Da madeira do bumerangue!
Guerreiro marcado e ferido em combate
Mas esta alma nunca se abate
É alma de Abade e elegante
Talvez perdida para a sua
Irrealidade em dias de chuva
Por vezes deambula por entre a calçada
Nas águas da chuva e na caniçada
Persistente erguida, jamais altiva
Combatente soldado cosido e emendado
Como uma velha boneca de farrapos
Detentor de força até a fibra dos seus fiapos
Já nada sou e tudo nunca fui
Por entre mares e marés vou de lés a lés
Passo por entre os corpos de estorvo à rés!
Até fim do mundo Alma minha comandante
Até ao infinito e mais além
Sempre pelas marés
Daqui, de lés a lés

O seu pensamento se perdia com ela, agora sentada no banco rés da aula de Trabalhos Manuais. Ela pensava em fazer uma lâmpada. “Pelo menos a árvore terá alguma iluminação no quintal, já que tenho que fazer algo e tenho com este barro da aula, vou fazer uma lâmpada para colocar num dos ramos da árvore de frutos azuis.” As suas mãos começaram a amassar a pasta de barro em cima da sua mesa. Esta não era mais alta que a sua cintura quando ela se erguia, mas no bando era perfeita para colocar as mãos na massa! Ela amassava lembrando-se da escrita do Sr. Ebo, e da árvore ela já não olhava para a árvore no quintal à vários meses e enquanto ela fazia a a lâmpada de barro pensava se ainda estaria igual a árvore e mesmo se ainda permaneceria o livro no mesmo local que ela o deixara. Os ramos e folhas eram muito delicados e ligeiramente toscos, ela não tinha nunca visto uma árvore assim… A chuva tinha caído no solo do quintal nos últimos meses, forte e fria, a água escorria pelos canteiros na maioria dos dias e havia até dias em que uma nébula enchia a parte mais afastada do quintal. “Tanta água, não sei que terá acontecido a árvore, poderá ela ter morrido afogada, abafada por tanta água. . . Talvez o livro se tenha desfeito com a água, se calhar eu estraguei-o…” Um pouco assustada Olívia olhava as suas mãos vermelhas, cor de tijolo, ensaboada e quase viscosas emaranhadas no meio da massa argilosa. Ela já tinha feita a forma circular da lâmpada e restava agora fazer o casquilho.

“Sem casquilo não posso por a lâmpada no ramo para iluminar o Sr. Ebo.” Escapara da língua de Olívia.

Na sala parecia que ninguém tinha ouvido o suave murmurar da menina e continuavam a sua tarefe de moldar. A Pequenina senhora levantara-se para ir pegar no seu lápis. A sua vestimenta, em contraste com suas mãos, era vermelha, um vermelho vivo que realçava o tijolo e massa das suas palmas. Ela parecia ser a minúscula deusa do barro!

Na secretária ao lado estava o jovem Murilo, olhando a sua massa. Ele não vira Olívia aproximar-se de si. Com o seu cabelo encrespado e volumoso que quase fazia a sua cabeça parecer maior do que era, ele tapava a visão da sua criação em barro. Olívia pegava no seu lápis tentando pelo canto do olho avistar a peça de arte que Murilo fazia. Mesmo tentando por duas vezes, ela não conseguiu avistar o que ele amassara e moldara e decidiu voltar à sua criação da lâmpada. Enquanto se agachava para voltar a sentar, Olívia pensava “Não vou poder colocar a lâmpada  na árvore sem um lustre”. Com precisão, a menina fez uma bela e delicada rosca na sua lâmpada de barro e voltou a amassar massa para poder fazer os lustres. Murilo olhou apenas uma vez para a pequena Olívia enquanto ela fazia o mais simples e belo lustre, ela nem se apercebera que o rapaz a fitava do outro lado e assim que ela terminou a sua escultura era tempo já de levar a massa ao forno para a solidificar. Assim, a aula terminou e ambos saíram da sala sem se olharem, primeiro saiu Murilo e apenas 3 pessoas ficaram na sala, e só depois,  disso disse “até depois” à sala a rapariguinha.

Tarde era, a noite se abatia no céu azul do dia… Olívia caminhava pela calçada, a menina tinha já ido pegar na sua lâmpada ao forno.
Assim que ela tinha aberto o forno tinha avistado sua lâmpada, agora agarrada a um lustre que ela não tinha visto antes, era simples e elegante, perfeito pensava ela. Pensava ela no caminho para casa, na sua cabeça viajam agora os pensamentos de colocar a iluminação com lustre na árvore do quintal…

Sem ter noção ela estava já a alcançar a sua porta do quintal, branca e com quatro simples tábuas de madeira, destrancada ela a empurrou abrindo-o para a sua esquerda ver agora uma colorida folhagem na Árvore Soldado pensava ela agora lhe chamar. “Tantas cores! A Árvore não estava assim quando para a escola eu sai! E grande, ela cresce como que alimentada pelo meu pensamento…” Em pequenos e alegres pulos saltitou na direcção do tronco de agora maior árvore! Sua raiz agora bem mais ruguenta mas bela e macia, madura, rugas de vida, de tempo. Olívia colocava sua pequena mão sobe tão artísticas deformações de raiz, e suavemente se ajoelhou em frente a dita árvore soltando a alça esquerda de sua mochila e removendo a alça direita assentando o saco na relva. Um leve ranger ouviu-se no jardim, nada mais nada menos, ela abrira sua sacola e com esquerda mão pegou com cuidado na lamparina que agora tomava forma em fragmentos saindo lentamente de sua mala. Era uma clássica lamparina que agora tomava forma com o lustre do rapaz…Olívia se ergueu levantando primeiro seu joelho direito e dando apenas uma passo em frente um ramo se moveu em seu redor, agora a seu alcance para prender sua lamparina… sem hesitar a menina atarracou com firmeza o dito aparelho no delgado ramo! E rapidamente mas carinhosamente o ramo se elevou para a sua natural posição na “Árvore Soldado” pronunciara Olívia!

O ramo agora onde a lamparina estava pendurada descaia um pouco para fora da árvore, como que propositadamente para mais iluminação conferir.
Olívia esboçava um leve sorriso em seus pequenos lábios…
Na sua cabeça surgiam agora palavra que ela lera outrora numa folha de papel vegetal:

"Quero escrever sobre desejar, sobre uma rapariga no jardim que,
 Sempre tentará, e tentará ser um tomate!
 Que julga nunca ser,
 vermelha o suficiente, ou suculenta o suficiente, ou madura que chegue.
Que lança e rodopia, e perde a sua saborosa pequena
 mente mas raio - ela continua, porque
 Isso é o que um tomate faz, e ela pode não se aperceber mas
 se fosse mais tomate ela seria um mirtilo."

Todas as cores da árvore agora em tons de cinza, tinha já a noite se abatido, e na sua lamparina começava agora e cintilar uma leve luz. Olívia voltara agora as costas para a árvore, fechara sua mala e pegando pela alça no seu centro caminhou até ao interior da sua casa inadvertidamente alheia ao que agora nascia na lamparina!

Ernesto Fulco Guerrero

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This is an excess of  imagination and a lake of reason and motivation to really make of that something of relative importance. So to try and act against  that we create this “chauvinism”, the strong idea that life is not only what we think is similar to yours. We dispose of the idea of similar and equal to our Carbon make up. Do not think you know how life works and is, simply because you lived and experienced? You only lived and experienced one type of it!! And that experience was in abundance alter and conducted in your-own person defects and previews of others. Your view is only one and in a whole world weights noting more than a feather compared to a planet. Live to know fallitur visio.